Votos de pobreza, filantropia, perseguição política, falta de provas e alegações de que a Justiça Estadual não tem competência para julgar o caso foram as teses apresentadas pela defesa dos 54 acusados de envolvimento no processo sobre o escândalo no jogo do bicho, nesta primeira semana de julgamento pelo Órgão Especial de Justiça do Rio.
O julgamento será reiniciado nesta segunda-feira. A maioria dos advogados acredita que vai conseguir inocentar seus clientes. Eles acham que os chamados grandes nomes - principalmente delegados que ocupavam cargos de chefia na época do escândalo, há cinco anos, podem escapar da condenação. Um promotor, advogados e policiais, além de bicheiros, são acusados de corrupção ativa e passiva, ou seja, pagamento e recebimento de ‘‘propinas’’ no funcionamento do jogo do bicho no Rio.
‘‘Acredito que apenas uns 20 réus possam ser condenados’’, arrisca o advogado João Mestieri, que defendeu o delegado e candidato a deputado estadual Paulo Souto, do PFL. ‘‘O Ministério Público (MP) não reuniu, na verdade, provas suficientes para condenar todos os acusados mas precisa, ao mesmo tempo, dar uma justificativa à sociedade depois de cinco anos de investigação’’, destacou o advogado. Ele exemplificou o seu caso, lembrando que o MP não conseguiu provar que seu cliente recebeu ‘‘propinas’’. ‘‘O nome Paulo apareceu na lista, mas não quer dizer que seja Paulo Souto’’, afirma.
A mesma tese de que metade dos réus pode ser condenado, de um a oito de prisão, também é repartido pelo advogado Nélio Andrade, que assiste o delegado Daniel Mello Gomes. ‘‘Esse é julgamento político, pois aqueles que participaram da denúncia e da fase investigativa são hoje candidatos’’, disse referindo-se aos desembargadores Carlos Antônio Amorim e Antônio Biscaia e a juíza Denise Frossard - que condenou em outro processo 14 bicheiros por contravenção em 1993. ‘‘O julgamento foi marcado às vesperas de uma eleição e esses candidatos usam o processo como bandeira para suas campanhas’’, ressaltou o advogado. ‘‘Como então não haver condenados ?’’, indaga Andrade.
Experiente na atuação de processos complicados e polêmicos, o ex-presidente do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) e advogado Evandro Lins e Silva, disse que acredita na Justiça e prefere não arriscar nenhum palpite. ‘‘Não posso fazer nenhum placar, porque a Justiça precisa ser consciente e cabe a cada desembargador fazer o seu juízo.’’ A linha neutra do jurista contrasta com dos advogados que atuam no processo.
A expectativa de que os quatro bicheiros - Emil Pinheiro, Carlos Teixeira Martins, o Carlinhos Maracanã, Luiz Pacheco Drunmond, o Luizinho Drumond e José Escafura, o Piruinha - possam a ser novamente condenados pela Justiça não preocupa os seus advogados. ‘‘Piruinha é pobre, pai de 26 filhos e morador do bairro da Abolição (zona norte do Rio) e não existe provas de seu envolvimento no pagamento de propinas’’, garantiu o advogador Jair Leite Pereira, na defesa de seu cliente.
A filantropia dos bicheiros, segundo seus advogados alegam, é uma atitude que não pode ser ‘‘desconsiderada’’ pelos desembargadores. ‘‘Os banqueiros do jogo do bicho não podem ser condenados por pagar enterros, exames médicos e material para a comunidade’’, defendeu o advogado Wilson Lopes referindo-se ao contraventor Carlos Teixeira Martins, o Carlinhos Maracanã. ‘‘Não existe corrupção entre bicheiros e policiais no Brasil’’, garantiu o advogado em sua defesa.
No início da semana, começa o exame das preliminares - recursos dos advogados durante o processo - e a votação do 54 réus pelos 25 desembargadores do Órgão Especial. Se forem condenados, eles deverão seguir diretamente para a prisão. Os advogados são unânimes num ponto: todos garantem que se os seus clientes forem condenados vão recorrer no Supremo Tribunal de Justiça (STJ).

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