Rio inspirou lei que fecha bares à 1 hora
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sexta-feira, 16 de julho de 1999
Por Felipe Werneck 
Rio, 17 (AE) - Conhecida pela boemia de seus habitantes, o Rio acabou servindo de exemplo para a polêmica lei que determina o toque de recolher nos bares de São Paulo à 1 hora, sancionada na semana passada pelo prefeito Celso Pitta (sem partido). A diferença é que na capital fluminense a medida foi determinada em decreto, há seis meses, pelo prefeito Luiz Paulo Conde (PFL).
Em 7 de janeiro ele decretou o fim da "segunda sem lei" no Baixo Gávea, principal reduto boêmio da zona sul da cidade, frequentado por cerca de mil pessoas de madrugada. A decisão obriga os oito bares e restaurantes que permanecem funcionando na região a fechar à 1 hora.
Essa foi a primeira de uma série de medidas tomadas por Conde, que também proibiu a apresentação, amplificada por caixas de som, de bandas de jazz e MPB nos quiosques da Lagoa Rodrigo de Freitas, na zona sul, vetou o samba e o chorinho nos botecos de Santa Teresa, no centro, e multou casas especializadas em forró no bairro da Lapa, sob a alegação de haver recebido reclamações por parte de moradores desses locais. Assim como em São Paulo, os estabelecimentos proibidos são aqueles que não dispõem de isolamento acústico.
Aluno do 8.º período de publicidade da PUC do Rio, Diego Heredia, de 24 anos, que costumava ir ao Baixo Gávea antes do toque de recolher, discorda das "medidas megalomaníacas e delirantes" de Conde. "Nosso compromisso maior é com os moradores, que reclamavam da algazarra promovida nas ruas", alega o secretário de Governo, Airton Aguiar. "Foi preciso um decreto para acabar com a segunda sem lei, impondo limites."
Aguiar não quis comentar a iniciativa paulistana, de adotar medidas reguladoras semelhantes às cariocas, como aplicação de multas e repressão ao comércio ambulante. "O Rio continua uma cidade boêmia, o que acabou foi a prevaricação, e o prefeito não é o Conde Drácula, e sim um amante da boa boemia."
Abaixo-assinado - O sócio do bar e restaurante Hipódromo
que funciona há 63 anos no Baixo Gávea, Ernani Gomes, estima em 40% a queda no faturamento decorrente do toque de recolher. Segundo ele, 20 funcionários da casa foram demitidos desde janeiro. O Braseiro da Gávea, que fica ao lado, teria dispensado cinco garçons. Depois de ter sido derrotados na Justiça, os comerciantes encaminharam à Câmara Municipal um documento com 4 mil assinaturas. Os vereadores marcaram para agosto a votação que poderá resultar na revogação do decreto.
"Mas não vamos permitir a volta da segunda sem lei e da grande orgia", alerta o diretor da Associação de Moradores da Gávea, René Hasenclever. Segundo ele, era impossível dormir até as 5 horas antes do decreto."Infelizmente não houve acordo com os bares; precisou-se impor a ordem para haver respeito ao cidadão", diz. Ele cita o caso de uma moradora da Rua dos Oitis
que esperava socorro médico e morreu porque a ambulância teria ficado parada na confusão. "Agora voltou a boemia; antes era baderna."


