Rio, 14 (AE) - Transformar esgoto em combustível. O que parecia possível apenas em filmes de ficção científica pode ser a solução a longo prazo para o problema do despejo de dejetos nas praias cariocas. Um projeto da Universidade Federal Fluminense (UFF) em parceria com a Universidade de Tubingen, na Alemanha, que já está sendo analisado por especialistas da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, desenvolve um reator de escala industrial capaz de converter matéria orgânica em fontes de energia não nocivas ao meio ambiente.
Conhecida como Processo de Conversão de Baixa Temperatura (LTC - Low Temperature Conversion), a transformação de matérias orgânicas em fontes de energia já é feita na Austrália e, experimentalmente, no Canadá, na Alemanha e no Brasil. "Estou embarcando no dia 11 de maio para a Alemanha e a Austrália para conhecer de perto o processo", anunciou hoje o secretário de Meio Ambiente, André Corrêa. "Estou muito otimista com a idéia de poder implantar essa solução nas estações de tratamento." Segundo Correa, no entanto, a única solução imediata possível é o reparo do emissário submarino de Ipanema, que começa na segunda-feira e terá duração de cinco dias.
A transformação de esgoto em combustível se dá através de um reator, onde é colocado o material seco. Aquecido a temperaturas que variam de 350ºC a 380ºC, o material se transforma em combustível. Do total de um quilo de fezes, por exemplo, 30% são convertidos em combustível similar ao óleo diesel e 60% em carvão. "O que fazemos, na verdade, é apressar com o calor um processo feito pela natureza em bilhões de anos"
explicou o engenheiro químico Raimundo Nonato Damasceno, responsável pelas pesquisas no Brasil.
Reparos - De acordo com laudo da Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema) divulgado hoje, as praias do Pepino, São Conrado, Vidigal, e Leblon apresentaram altos índices de Escherichia coli, indicador de poluição fecal, e, portanto, estão impróprias para o banho. Em Copacabana, no Leme, em Ipanema e no Arpoador o banho está liberado.
Na segunda-feira passada foram lançadas no mar 64.800 toneladas de esgoto para que o emissário de Ipanema fosse ligado ao de Botafogo, evitando que, durante o reparo da próxima semana
os dejetos sejam lançados muito perto das praias. Segundo o secretário, no entanto, os resultados negativos da poluição das praias divulgados hoje não estão relacionados à ligação dos emissários. "O problema nessas praias é decorrente das ligações clandestinas de esgoto", explicou.
De uma maneira geral, as pessoas seguiram a determinação da secretaria e evitaram o banho de mar. Apenas turistas desavisados entraram na água. A portuguesa Margarida Figueiredo contou que não sabia do problema. "Ninguém no hotel me avisou de nada", disse. O inglês Robert Redmond também não foi avisado. "Soube pela televisão do problema e reclamei na recepção do hotel", contou. A Turisrio informou que começa a distribuir amanhã folhetos em inglês, indicando as condições das praias. Os vendedores ambulantes reclamaram do problema. "As vendas caíram", disse José Paulo do Nascimento.
A partir de segunda-feira, quando começarem as obras de reparo do pilar do emissário de Ipanema, serão jogadas seis toneladas de esgoto por segundo no mar. "Segundo um estudo da Coppe (Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia)
de três a cinco dias depois de finalizada a obra a situação das praias estará normal", afirmou o secretário de Meio Ambiente. "Estamos fazendo o máximo para que o impacto ambiental seja o menor possível."

mockup