Uma pesquisa realizada com 146 crianças e adolescentes atendidos pelo Ambulatório de Atendimento à Família (AAF) do Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão-Gesteira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), encontrou 35% de ocorrências de maus-tratos físicos, 29% de negligência, 21% de maus-tratos psicológicos e 15% de abuso sexual. O ambulatório atende a crianças entre 0 e 18 anos vítimas de violência doméstica e, segundo o trabalho, metade dos casos encaminhados à instituição nos últimos dois anos puderam ser clinicamente confirmados como agressão.
A pesquisa, intitulada Perfil de Crianças e Adolescentes Vítimas de Violência Doméstica, será apresentada na quinta-feira num seminário sobre o tema, promovido no Rio pela Associação Brasileira de Psicanálise. Como não é rara a dificuldade em diagnosticar a violência contra a criança - as marcas de espancamento podem desaparecer depois de alguns dias e nem todas as formas de abuso sexual provocam alterações físicas - os entrevistados foram divididos entre casos suspeitos e confirmados.
Nos casos suspeitos, muda o quadro de ocorrências de maus-tratos. Os abusos sexuais passam a ser os mais encontrados: 32%, seguidos dos maus-tratos físicos (28%), negligência (25%) e psicológicos (16%). ‘‘Não é fácil confirmar um caso de abuso sexual e, por isso, ficam abaixo dos outros tipos nos pacientes confirmados, mas lideram as suspeitas’’, explica a coordenadora do trabalho, a pediatra Sylvia Regina Moraes.
O abuso sexual acontece quatro vezes mais com meninas do que com meninos, segundo a pesquisa. ‘‘As meninas são vítimas mais comuns, mas temos de levar em consideração que o abuso de meninos, por estar ligado ao homossexualismo, acontece de forma ainda mais velada’’, pondera Sylvia. O corte social das crianças e adolescentes acompanhados pelo ambulatório é de famílias de baixa renda, mas a médica adverte: o abuso sexual não é problema apenas das classes economicamente inferiores. ‘‘É um problema que perpassa toda a sociedade, mas como os pobres se dirigem ao serviço público, fica mais fácil fazer estatísticas de seus casos do que das pessoas atendidas em consultórios particulares, que pagam pelo silêncio’’, afirma. Ela lembra, porém, que o abuso sexual apareceu com destaque na sua pesquisa pela procedência dos casos - pacientes que chegaram a um hospital.
Na pesquisa, o abuso sexual surgiu como o tipo de violência mais comum de acontecer isoladamente, enquanto que os maus-tratos físicos, a negligência e o abuso psicológico frequentemente vinham associados.
Quando se abre o leque de agressões, um dado salta à vista: em 59% dos casos confirmados e 55% dos suspeitos, os autores da violência são os pais - e a mãe, separadamente, é a maior responsável pelas agressões: 40% dos casos confirmados e 29% dos suspeitos.
‘‘É a mãe quem mais fica com os filhos e, se os pais tivessem o mesmo tempo de exposição à criança, o percentual deles subiria’’, acredita Sylvia, que lembra: culturalmente, atribui-se a negligência no cuidado com os filhos às mães, e não aos pais, embora sejam igualmente responsáveis. Os padrastos, suspeitos número um quando se trata de agressão à criança, representam, no entanto, apenas 1,4% dos agressores nos casos confirmados.

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