Rio Amazonas é um mar dentro do Pará
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domingo, 14 de janeiro de 2001
Lúcio Flávio Pinto Agência Estado 
Turistas do mundo inteiro que chegam a Belém durante o ano desembarcam convencidos de que verão o Rio Amazonas, o maior do mundo, em frente à cidade. É sincera a surpresa e profunda a decepção quando os visitantes ficam sabendo que o rio está a quase 200 quilômetros de distância, ao norte da área urbana.
Mas turistas, estudantes, e mesmo a maioria dos 1,2 milhão de habitantes da própria Belém continuam certos de que o Amazonas é o principal contribuinte de águas para a baía que banha a capital paraense, se espalhando pelo mais vasto golfo ou delta existente, que contribui com 20% de toda a água de rio descarregada nos oceanos do planeta.
Segundo ensinam sem contestação muitos manuais de geografia em circulação nas escolas brasileiras, o Amazonas tem 300 quilômetros de boca ao chegar ao final do seu percurso de 6.200 quilômetros, desde o sul do Peru até o Atlântico. Na foz, lança águas no Atlântico por dois braços, ao norte e ao sul de Marajó, a maior ilha fluvial do mundo, com 50 mil quilômetros quadrados.
A descarga média é de 80 milhões de litros de água por segundo penetrando no mar, quatro vezes mais do que a vazão do Mississipi, o maior rio dos Estados Unidos. Mas chega a ser três vezes maior no auge do períodos de cheia, que dura um semestre.
Isso, só de massa líquida. Os sedimentos em suspensão na água chegam a 160 milhões de toneladas anuais, o que levou o cientista Charles Hartt a imaginar: Se sobre uma linha férrea corresse, sem parar, um trem contínuo carregado de tijuco e areia, essa quantidade de materiais ainda seria menor do que o de fato transportado pelas águas do Amazonas.
Mas apenas a 116ª parte de todo esse despejo de água e material em suspensão é desviada da calha do Amazonas, deixando de alcançar o Atlântico, para ser desviada, através de centenas de furos, na direção sul, desembocando no Rio Pará, onde se dilui junto a descargas de outros 10 rios, todos acima de 400 quilômetros de comprimento. Só então o rio banha Belém, onde está uma das diversas bacias desse que é o maior e o mais mal conhecido dos estuários do Brasil.
Talvez a ignorância sobre a região possa diminuir com a publicação de um livro, Várzeas Flúvio-Marinhas da Amazônia Brasileira, lançado no final do ano passado pela Faculdade de Ciências Agrárias do Pará. O principal dos autores, o engenheiro agrônomo Rubens Rodrigues Lima, trabalha sobre o tema há quase 50 anos. Agora, aos 83, ele se juntou a outros dois pesquisadores Manoel Malheiros Tourinho e José Paulo Chaves da Costa para consolidar todo o conhecimento existente sobre a área e tentar acabar com as fantasias e falácias até hoje de largo trânsito, às vezes extravasando das salas de aula para os redutos acadêmicos.
Duas bacias Já não são tantos quanto antes, mas ainda não são poucos os que, em livros didáticos ou mesmo em trabalhos técnicos, ainda se atrevem a sustentar que o Tocantins, o 25º maior rio do mundo, correndo de sul para norte ao longo dos seus 2.500 quilômetros de extensão, é afluente do Amazonas. Só a partir de 1972 é que os dados referentes à bacia do Amazonas passaram a ser tratados separados das informações relativas à bacia do Araguaia-Tocantins, em divisão adotada pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica, o já extinto DNAEE, pondo fim ao domínio absoluto da concepção de uma só bacia Amazonas-Tocantins.
Nos meios científicos não há mais dúvida de que são duas bacias distintas, apenas com pontos de chegada próximos (relativamente às distâncias amazônicas, claro). Mas ainda é predominante a noção de que o Amazonas se divide em dois braços ao chegar à sua foz, diante da ilha de Marajó, e que é o principal formador do estuário do Pará.


