Curitiba

Kraw PenasDisciplinaA diretora Mariselni Piva acredita que a disciplina militar é um dos fatores que motivam os pais a inscreverem filhos rebeldes na Guarda Mirim, na esperança de abrir-lhes uma porta que pode levar a uma vida melhorA disciplina é rigorosa: meninos não podem usar brincos nem cabelos pintados e a hierarquia segue os moldes militares. A rotina é apertada: meio período de estudo, meio de trabalho. Mas apesar disso - ou, mais certamente, por isso mesmo -, faltam vagas para atender tantos pais interessados em colocar seus filhos na Guarda Mirim. Pela instituição, mantida há 33 anos pelo governo do Estado em Curitiba, já passaram cerca de 25 mil adolescentes - todos de famílias de baixa renda, para as quais a Guarda funciona como a porta que pode levar a uma vida melhor.
Para ingressar na Guarda Mirim é preciso ter 14 anos de idade, 4ª série do 1º grau concluída e renda familiar em torno de três salários mínimos. A Guarda abre 450 vagas anuais. Segundo a diretora, Mariselni Piva, mais de 1.000 candidatos disputam essas vagas a cada ano. Um teste indica os escolhidos.
A iniciativa de procurar a Guarda quase sempre parte dos pais. ‘‘Para muitos, a Guarda é a última esperança de encaminhar filhos rebeldes ou com outros problemas’’, diz Mariselni. ‘‘Meu pai me trouxe para cá porque eu não me acertava com ele’’, conta Natanael de Figueiredo, 16 anos, há dois na Guarda.
O relacionamento não melhorou e Natanael saiu de casa. Mas hoje ganha R$ 177,00 mensais como office-boy no Tribunal de Justiça, voltou a estudar e planeja ser advogado criminalista.
A Guarda Mirim tem convênio com 102 empresas privadas e órgãos públicos, nos quais mantém cerca de 900 estagiários. Antes de começar a trabalhar, meninos e meninas ficam um ano como aspirantes, passando por um treinamento que inclui frequência à escola e formação complementar em áreas como paisagismo, auxiliar odontológico e computação.
Ao final desse ano, recebem a farda, numa solenidade que é o orgulho das famílias. Desde o ano passado, o velho cinza deu lugar ao azul petróleo, como parte de uma série de mudanças instituídas na Guarda. Os alunos não frequentam mais a escola regular, mas um supletivo implantado no prédio da instituição.
A parte militar da formação, antes ensinada por civis, ficou a cargo de policiais militares. Inclui ordem unida e noções de respeito e hierarquia. Pode parecer ultrapassado, mas Mariselni garante que os pais querem assim. ‘‘Fizemos uma pesquisa e a maioria opinou pela manutenção do modelo militar, que acham mais eficiente no aspecto disciplinar’’.
Mesmo assim, sempre aparecem problemas. Só este ano, 35 menores deixaram as empresas onde trabalhavam por falta de adaptação e outros 36 desistiram do trabalho. O setor de psicologia atende casos de problemas comportamentais, indisciplinares e de uso de drogas. ‘‘Muitos meninos e meninas vêm de famílias desestruturadas, mas os problemas seguem a média da sociedade como um todo’’, afirma a diretora.
Para ela, mais significativos são os casos de sucesso de gente que saiu da Guarda para o mercado de trabalho. Um exemplo é Levi Pereira da Silva, 39 anos, maestro da banda da Guarda Mirim e professor da escolinha de música, com mais de 200 alunos.
Na década de 70, Silva passou quatro anos na Guarda, onde tomou contato com a música. Depois, formou-se em Educação Artística, cursou pós-graduação em Regência e fez da música profissão. No ano passado, voltou para a Guarda com a missão de reativar a banda, extinta há anos. ‘‘Agora, tento passar aos meninos o que aprendi’’, conta.

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