São Paulo, 14 (AE) - O secretário geral da UNCTAD (Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento), embaixador Rubens Ricupero, traçou hoje um cenário sombrio para o comércio exterior brasileiro e disse que desvalorizações não resolvem problemas das exportações. O embaixador citou três fatores negativos para o aumento ou recuperação das vendas externas do País. O primeiro se refere à tendência decrescente da economia mundial. Depois, a queda dos preços das commodities e finalmente o custo Brasil. "Estamos enfrentando o estrangulamento do fator externo", disse Ricupero durante uma palestra na Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).
De acordo com ele, o superávit comercial do Brasil este ano poderá chegar, com sorte, ao US$ 6 bilhões ou US$ 7 bilhões no máximo. "Acho que a meta de US$ 11 bilhões acertada com o Fundo Monetário Internacional foi baseada no exemplo do México, que, logo depois da desvalorização do peso, teve um crescimento significativo. Essa situação não pode servir de parâmetro para o Brasil", afirmou Ricupero. Ele não deixou de lembrar que a economia mundial terá em 99 uma das menores taxas de crescimento dos últimos anos, razão pela qual o comércio mundial também será afetado. Segundo ele, na melhor das hipóteses a expansão da economia mundial deverá ficar entre 1,5% e 2%. Portanto, acrescentou o embaixador, "não podemos esperar do Exterior uma colher de chá".
Ricupero tentou atenuar suas declarações afirmando que o cenário previsto pela UNCTAD não era catastrófico mas de moderado otimismo. "Vamos ter um pequeno crescimento da economia e do comércio mundial, mas isso não ajudará as exportações brasileiras", disse. Para ele, o panorama do comércio mundial a curto prazo é sombrio porque, no momento, é impossível prever de onde virá o estímulo, visto que as economias européia e japonesa passam por um momento de letargia. Outro fator mencionado pelo embaixador é a queda dos preços das matérias-primas no mercado internacional. "Os índices da UNCTAD mostram que, em relação a 1970, os preços das commodities perderam mais de 2/3 do seu valor. Portanto a tendência não é nada positiva", acrescentou o embaixador.
Ricupero citou ainda dentro desse cenário negativo para o comércio mundial a forte retração das importações por parte dos países asiáticos. De acordo com ele, nos primeiros cinco anos de década de 90, a ásia (excluindo a China) respondia por 2/3 do crescimento das importações e era responsável ainda por 23% da absorção do metais produzidos no planeta e por 20% das importações de alimentos. Mas esse quadro mudou nos últimos dois anos.
Segundo dados da Organização Mundial do Comércio (OMC) as importações da ásia no ano passado caíram 8,5% em volume e 17% em receita. Ricupero disse que o Brasil precisa fazer reformas estruturais bastante amplas para poder resolver o problema das exportações. Ele criticou o baixo dinamismo do comércio exterior brasileiro. Afirmou que as exportações brasileiras se restringem apenas a bens intermediários e algumas commodities. "Embora exportemos aço ele não é de grande qualidade, tirando as raras exceções", afirmou.
Ele explicou ao empresários que há uma grande necessidade de o Brasil começar a exportar produtos com maior valor agregado. "É difícil encontrar na lista da UNCTAD dos 100 produtos que apresentam maior taxa de crescimento algum produto brasileiro" argumentou. Segundo ele, o governo precisa repensar o comércio exterior. "Não vamos resolver nosso comércio exterior com desvalorização ou com o crescimento da economia" concluiu.

mockup