Paris, 22 (AE)- O Iraque e seu líder, o inquietante e enrugado Saddam Hussein, estão de novo nas primeiras páginas da imprensa. Mas, desta vez, não é por causa de sua briga com os Estados Unidos. É por causa das revoltas que assolam o país.
Estas revoltas têm uma fonte meio religiosa, meio política. Um aiatolá foi morto, juntamente com seus dois filhos e, imediatamente, várias cidades do país pegaram fogo... Não apenas em torno da capital, Bagdá, mas também nas cidades sagradas (Nadjaf, Kerbala...), a população se revoltou. A polícia reagiu. Somente na cidade de Madinat El Saura (enorme subúrbio de Bagdá), 250 pessoas foram presas. Houve muitos mortos. Em cinco ou seis outras localidades, vários homens foram presos.
Por que este endurecimento? Porque o aiatolá assassinado, Mohammad Mohammad Sadeq al-Sadr, era um líder "xiita", enquanto no Iraque o poder está inteiramente nas mãos dos sunitas. Cumpre relembrar que, em anos recentes, dois outros aiatolás xiitas foram assassinados e um terceiro ficou gravemente ferido, e, ao que parece, tudo aconteceu por ordem de Saddam Hussein.
Uma palavra sobre o movimento xiita. Depois da morte do profeta Maomé, os xiitas acharam que a sucessão de Maomé deveria ter sido um privilégio não dos três primeiros califas (Abu Bakr, Omar e Otmã) , que reconheceram os sunitas, mas de Ali, esposo de Fátima, uma das filhas do profeta. Desde então, o cisma entre sunitas e xiitas jamais foi superado. E essa controvérsia assumiu também uma cor política.
No Iraque o poder está nas mãos dos sunitas, embora os xiitas sejam mais numerosos: 60% da população iraquiana é xiita. Aliás, é por isso, que o regime de Saddam Hussein, que se apóia sobre o poderoso partido Baath, está tão nervoso e tão violento em relação aos xiitas.
Saddam Hussein tem dois inimigos: No Sul, os xiitas e, no Norte, os curdos, esyes montanheses "sem Estado", que se encontram dispersos entre quatro países (Turquia -a maior parte-, Irã, Iraque e Síria).
Além disso, depois da Guerra do Golfo, foi sobre estas duas facções rebeldes - os xiitas e os curdos - que o presidente norte- americano George Bush quis se apoiar para derrotar Saddam Hussein, que havia sobrevivido à guerra. A repressão de Saddam Hussein contra os xiitas e os curdos foi tão feroz que as duas regiões logo reencontraram a calma - a calma da morte.
Quando os curdos se sublevaram, Saddam Hussein usou bombas de gás.
Contra os xiitas, ele preferiu o sufocamento: este sufocamento se realizou por um lado de maneira natural. Efetivamente, embora não possuam o poder político, os xiitas tinham outrora o poder econômico.
Mas, desde o bloqueio implacável dos Estados Unidos, não existe mais economia no Iraque e, consequentemente, os xiitas perderam seu único recurso.
Mas o bloqueio dos Estados Unidos não é a única razão do enfraquecimentodos xiitas. Sadam Hussein empreendeu igualmente a drenagem das regiões pantanosas ao Sul do país. Justificou essa drenagem como uma medida ecológica, o que é absurdo, pois esses veneráveis pantanais, que vêm da antiga Babilônia, constituem uma das jóias da Terra. Na realidade, se Saddam mandou destruir os pântanos, foi porque os xiitas encontravam nesses labirintos aquáticos seus excelentes esconderijos.
O assassinato de Sadeq, os distúrbios que se seguiram, bem como a brutalidade da repressão, levantam um pedaço do véu que cobre o Iraque.
Com justiça, muitos sentem compaixão por um povo asfixiado por um bloqueio. É verdade que este estrangulamento de todo um povo é algo cruel.
Mas, não se deve esquecer que o tirano de Bagdá é o verdadeiro responsável por estes horrores. Frequentemente, Saddam Hussein apresenta a imagem do fraco oprimido por uma superpotência. O assassinato de Sadeq arranca a máscara. Por trás da máscara, podemos descobrir o escárnio da morte.

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