Revolta marca resgate de resgate dos corpos em Buenos Aires De Ariel Palacios, Especial para a AE
Buenos Aires, 01 (AE) - Revolta e confusão marcaram o dia de hoje (01) em Buenos Aires: a empresa aérea Lapa recusou-se a fornecer informações sobre os passageiros que haviam embarcado no vôo 3142 que partiu de Buenos Aires com destino a Córdoba, e que acidentou-se segundos após decolar, causando a morte de pelo menos 64 pessoas.
Dezenas de parentes e amigos dos passageiros esperavam irados e angustiados por informações na frente dos escritórios da empresa e faziam plantão na frente dos nove hospitais onde as vítimas haviam sido internadas. Os parentes nem puderam confirmar se as pessoas que estavam procurando haviam embarcado no vôo, já que dos 130 passageiros, somente 95 haviam subido a bordo.
O Boeing 737-200, da Lapa caiu às 20h55, no extremo da pista logo após decolar. Nesse momento, o avião continuou avançando, levando com ele a cerca do aeroporto e atravessando a avenida Costanera Rafael Obligado. Esmagando um ponto de ônibus, pedestres e diversos carros, o aparelho passou perigosamente a poucos metros de um posto de gasolina, e somente parou quando chocou-se contra um monte de terra dentro da Associação Argentina de Golfe.
"Não podíamos desfivelar os cintos de segurança", reclamaram os poucos passageiros sobreviventes. O número de vítimas foi aumentado pelas falhas nas portas de emergência, que não abriram. Somente a porta traseira pôde ser aberta, depois de ser forçada pelos desesperados ocupantes do avião.
Em um breve comunicado, a empresa Lapa lamentou o acidente. Nenhum diretor apresentou-se perante os parentes das vítimas. No fim do dia, Andrés Deustch, presidente da Lapa, disse que não tinha explicações para o acidente. Segundo ele, o avião acidentado foi checado recentemente nas oficinas da Varig, em Porto Alegre.
O acidente desta terça-feira levou ao Aeroparque os integrantes da organização dos parentes das 74 vítimas fatais do acidente da empresa Austral, ocorrido em outubro de 1997, sobre uma região rural do Uruguai. Os manifestantes apresentaram sua solidariedade aos parentes das vítimas da Lapa, e afirmaram que este acidente será levado mais à sério: "da outra vez, o avião caiu longe, no quintal. Desta vez, os corpos estão espalhados na porta das autoridades".
No acidente anterior colocou-se a culpa no piloto e em uma tempestade. "Desta vez, veremos quem vão culpar", afirmaram, indicando que a falta de segurança dos aeroportos argentinos e a péssima manutenção dos aparelhos são a verdadeira causa dos acidentes.
No avião viajavam 95 passageiros, além de cinco tripulantes. No total existem 34 feridos, dos quais três foram pedestres colhidos na avenida Costanera. Oficialmente foram encontrados os corpos de 64 pessoas, sem identificar se são ou não passageiros.
Sinistramente, na noite de terça-feira, apesar da tragédia que ocorria a menos de 50 metros de distância, dentro do Clube Punta Carrasco os participantes de uma festa continuaram bebendo e dançando. Convidados para o lançamento de uma nova linha de cosméticos da empresa Coty, divertiram-se ao som da orquestra que não parou de tocar, e comentaram sobre o acidente que estava se desenvolvendo na sua frente e que podia ser visto pelos imensos janelões dos salões do Clube.
O paradeiro do piloto, Gustavo Weigel, esteve envolvido em mistério ao longo do dia. Ricardo Weigel, irmão do piloto, ao ser informado que Gustavo havia conseguido sair do aparelho antes da explosão, procurou seu irmão por diversos hospitais, sem encontrá-lo. Na Lapa, tampouco lhe deram informações. No entato, um professor de golfe, que ajudou a retirar pessoas do avião, sustenta que ele próprio socorreu o piloto, que repetia constantemente "quero morrer". O professor afirma que o colocou dentro de uma ambulância. Além dele, Luis Echeverry, o co-piloto, que foi visto saindo vivo do avião, também esteve desaparecido, aumentando o mistério. No fim do dia, foi anunciado que ambos estavam mortos.
Durante uma cerimônia de entrega de prêmios na Casa Rosada, o presidente Carlos Menem pediu um minuto de silêncio. Com a voz entrecortada, agradeceu e derramou algumas lágrimas. "É um dia de luto para a Argentina. Aparentemente ocorreu por uma falha mecânica", disse o ministro do Interior, Carlos Corach. O ministro descartou a possibilidade de um atentado.
Fernando De La Rúa, prefeito de Buenos Aires e candidato à presidência do país pela oposição, afirmou que o acidente ocorrido obriga a "repensar" a localização do aeroporto. "O Aeroparque não deveria estar aqui", disse De La Rúa, que afirmou que "a tragédia poderia ter sido maior". De La Rúa suspendeu sua campanha eleitoral por tempo indeterminado.
O acidente no Aeroparque trouxe à tona mais uma vez a "Aeroísla", um projeto de trasladar o aeroporto para uma ilha artificial que seria construída no Rio da Prata, a 500 metros da atual localização. Como exemplo do perigo de um aeroporto dentro da área urbana, os meios de comunicação portenhos referiram-se ao acidente da TAM em São Paulo.





