Revista aponta despreparo do piloto
PUBLICAÇÃO
domingo, 02 de março de 1997
Agência Estado 
SÃO PAULO - O piloto e o co-piloto que conduziam o fatídico Vôo 402 da TAM foram vítimas da falta de preparo para lidar com situações inesperadas. A informação consta na reportagem especial que a revista Veja desta semana publicou sobre a queda do Fokker 100, no dia 31 de outubro, matando 99 pessoas. O piloto José Antônio Moreno e co-piloto Ricardo Gomes Martins insistiram em resolver o problema do sistema de aceleração automática, chamado autothrottle, sem se preocupar com a possível presença de outra falha, conforme a revista.
A reportagem de Veja menciona que a informação do defeito no reversor da turbina direita está na fita da caixa-preta. Na gravação que registra a conversa da cabine há indícios de que a tripulação leu o sinal de desaceleração equivocadamente.
Segundo um dos integrantes da comissão do Ministério da Aeronáutica que investiga o acidente, ouvido ontem pela Agência Estado, a conclusão ainda é prematura. Acho um pouco cedo para atribuir uma falha humana, disse. Ainda é preciso esperar os resultados da avaliação da subcomissão de materiais que ainda não acabou de analisar os destroços.
O relatório final sobre o que aconteceu no momento do acidente só será conhecido depois que todas as subcomissões emitirem um laudo final e se reunirem. O documento só deverá ser divulgado em abril.
O presidente da TAM, comandante Rolim Adolfo Amaro, já havia descartado a hipótese de falha da equipe. Estou absolutamente seguro de que isso não vai acontecer, disse em entrevista exclusiva à Agência Estado, publicada no dia 23.
De acordo com Veja, depois de um alarme sonoro, quando o avião dirigia-se para a pista, os tripulantes não se preocuparam porque imaginavam ser o problema do autothrottle, sem grande importância, e, por isso, falavam em tom de brincadeira. A conversa foi a seguinte:
- Sacaneando logo no começo? - comentou o piloto, ao ouvir o alarme.
- Nem saímos do chão! - respondeu o co-piloto. E o alarme volta a tocar, mesmo depois de o avião ter iniciado a corrida para decolar.
- Ei, é isso que tá fora, viu? - avisou o piloto, provavelmente referindo-se ao aparelho defeituoso.
Houve outro alarme, desta vez duplo, e o co-piloto informa ao comandante: V-1, referindo-se ao código de que a decolagem está para começar. O avião saiu do chão e o reversor da turbina direita se abriu. Ouviu-se na cabine um barulho metálico, do manete de aceleração direito voltando para trás.
- Travou! - disse o co-piloto, indicando que o reversor aberto impedia o movimento da manete. O reversor fechou-se e o manete voltou a acelerar. A pane, porém, repetiu-se duas vezes.
- Desliga lá em cima. Puxa aqui! - afirmou o piloto, provavelmente mandando desligar o autothrottle para acelerar manualmente. O avião perdia altitude.
- Desliga lá em cima. Aqui também - disse o piloto.
- Tá off, tá off - informou o co-piloto, em voz tensa, dizendo que já havia desligado.
O avião perdeu velocidade. Estava fora de controle.
- Ai, meu Deus! - disse o piloto. Essa foi a sua última frase.
A gravação da caixa-preta termina com um alarme eletrônico em inglês, avisando que o avião estava caindo e isso não deveria ocorrer:
- Dont sink!


