Buenos Aires, 23 (AE) - Unidos contra o presidente Carlos Menem. Essa é a intenção da inesperada aliança entre os dois principais pré-candidatos do Partido Justicialista (o partido do governo, também conhecido por "peronista") às eleições presidenciais argentinas: Eduardo Duhalde e Ramón "Palito" Ortega.
O anúncio da união de forças provocou uma reviravolta na política argentina, que até há poucos dias havia-se acostumado a ver Duhalde como o único rival interno de Menem e a Ortega como seu fiel e submisso herdeiro designado. Com esta aliança, Duhalde e Ortega pretendem combater as tentativas de reeleição de Menem, além de somar forças para recuperar o terreno perdido para o candidato da oposição à presidência do país, o atual prefeito de Buenos Aires, Fernando De La Rúa.
Duhalde é o governador da província de Buenos Aires e prega a volta ao "peronismo à moda antiga", dando destaque à polítca social, enquanto critica o neoliberalismo do presidente Carlos Menem. "Palito" Ortega é o ex-governador da província de Tucumán e havia sido durante o último ano o "herdeiro" de Menem à sua sucessão. Ex-cantor de baladas românticas, Ortega foi deslocado do posto de herdeiro há duas semanas, quando Menem lançou a candidatura do ex-piloto de Fórmula 1 e ex-governador de Santa Fe, Carlos Reutemann. No entanto, ainda não houve um anúncio do cauteloso e lacônico ex-piloto declarando que aceita o desafio. Reutemann deverá definir amanhã (24) se será ou não pré-candidato.
"Agora é tudo ou nada", sustentam os "ultra-menemistas", como são conhecidos os incondicionáveis seguidores do presidente. Amanhã, durante um encontro com centenas de dirigintes partidários peronistas, poderia ser lançada uma ofensiva para lançar Menem como candidato à presidência. O presidente está proibido de concorrer à uma segunda reeleição: foi eleito em 1989, e reeleito em 1995, e de acordo com a Constituição, teria que esperar um período presidencial para poder ser candidato outra vez. No entanto, desde o ano passado, seus assessores tentam encontrar uma saída jurídica de forma a driblar a Carta Magna e permitir que o presidente possa se candidatar mais uma vez e - talvez - continuar no poder.
Dentro da estratégia dos ultra-menemistas estão os constantes pedidos de deputados e governadores à Justiça eleitoral para que permita a candidatura. Por esse motivo, já começaram as movimentações para adiar a convenção do partido de abril para julho, o que poderia dar tempo para conseguir seus objetivos. Analistas políticos consideram que se Menem conseguir a permissão para disputar a segunda reeleição, Duhalde não se resignará a perder sua chance mais uma vez, e poderá fraturar o partido peronista, candidatando-se por fora.
O motivo do êxodo de Ortega às fileiras "anti-menemistas" deveu-se ao seu deslocamento das preferências da Casa Rosada, a sede de governo. A proposta da candidatura de Reutemann fez com que Ortega perdesse sua utilidade. E não era a primeira vez: em 1995, "Palito" tinha a promessa de que seria o vice de Menem. Mas no último momento, este escolheu o ex-ministro do Trabalho da ex- presidente Isabelita Perón, Carlos Ruckauf. A inesperada retirada do antigamente submisso Ortega em direção às fileiras inimigas causou cólera no âmbito presidencial.
"Palito é um ingrato", teria dito Menem, sustentaram diversos assessores.
Até agora não foi estipulado o mecanismo pelo qual será definido qual dos dois será o candidato à presidência e quem será o candidato a vice.
Entre as alternativas especuladas está a de encomendar à uma empresa de opinião pública uma pesquisa entre os líderes do peronismo em todo o país. O mais votado será o candidato a presidente e o segundo colocado será o vice. Esta alternativa ainda inclui que o resultado seja ratificado pela maioria dos governadores peronistas.
Outra opção é que Duhalde e Ortega concorram na convenção interna do peronismo, marcada para o dia 11 de abril, onde o vencedor será o candidato à presidência e o perdedor, o vice. Outra via seria que na convenção os delegados do partido votem pela chapa "Duhalde-Ortega", ou pela "Ortega-Duhalde".
No entanto, analistas políticos consideram que devido ao curto prazo que os separa da convenção, às manobras do presidente Menem para ressucitar o movimento a favor de sua segunda reeleição e à indefinição de Reutemann, Duhalde e Ortega poderiam chegar a uma chapa de consenso nos próximos dias. E poucos duvidam que neste caso, o candidato à presidência seria Duhalde, e Ortega, seu vice. Duhalde é o governador da maior e mais poderosa província do país, onde está localizado o maior número de eleitores: 40% do total. Além disso, já foi vice-presidente, e desde o começo da década espera ansiosamente ocupar o "sillón de Rivadavia", como é conhecida a cadeira presidencial.

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