Brasília, 26 (AE) - A estratégia de defesa do ex-presidente do Banco Central, Francisco Lopes - que praticamente forçou a sua prisão pela CPI do Sistema Financeiro - atropelou uma operação em andamento desde o fim de semana para restituir o comando político do Congresso ao presidente Fernando Henrique Cardoso. A costura feita pelo presidente, inicialmente com o seu operador político direto e depois com os principais líderes da coalizão que sustenta o governo, seria deflagrada após o depoimento de Lopes à comissão. A prisão pegou toda a equipe do Palácio do Planalto de surpresa. Articulador político do governo
o ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, recebeu a notícia por jornalistas e foi convocado pelo presidente imediatamente, para avaliar a repercussão do fato.
"Foi ruim para todo mundo, dá margem para todo o tipo de especulação", queixou-se um ministro. Na avaliação desse ministro, que pediu anonimato, o presidente paga a conta da prisão de Lopes: ela foi péssima para a imagem do governo.
"Foi uma estratégia exclusiva da defesa: nossa expectativa era a de que os trabalhos da CPI seguissem com equilíbrio, mas normalmente", afirmou o ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, confirmando a frustração com o desenrolar dos fatos. Esperava-se que, em longas horas de depoimento, o ex-presidente do BC no mínimo esclarecesse qualquer dúvida sobre a mudança do câmbio, a única coisa que, na avaliação do Planalto, afeta efetivamente a credibilidade do governo. As demais denúncias seriam, juridicamente, "pecadilhos" de Francisco Lopes - e o governo poderia eximir-se da responsabilidade propondo consertar brechas legais que permitiram, ao longo do tempo, uma certa promiscuidade entre o poder público e o sistema financeiro. O fato político criado com a recusa de Lopes de aceitar as condições impostas pela CPI podem ter uma repercussão internacional que até agora os trabalhos da comissão não tiveram
na avaliação de outro ministro.
Transpar$ncia - Segundo o secretário de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento de São Paulo, José Aníbal, que esteve pela manhã com o presidente Fernando Henrique, a idéia era a de que os esclarecimentos de Francisco Lopes eliminariam o "clima lacerdista" criado pela CPI do Sistema Financeiro - uma referência ao líder da antiga UDN, Carlos Lacerda, político versado em denúncias em tom emocional e forte, que acabavam fugindo ao controle e transformando a realidade num escândalo.
"É importante o depoimento para que não fique nenhuma dúvida sobre a mudança do câmbio", disse Aníbal, ainda pela manhã. À tarde, Lopes saía pela porta do Congresso algemado, sem ter dito sequer uma palavra. Em vez dos ânimos arrefecerem-se, como era esperado pelo governo, a CPI tornou-se, mais ainda, um caso de polícia.
No fim de semana, o presidente Fernando Henrique havia, enfim, cedido aos argumentos dos tucanos, de que era necessário retomar a iniciativa do processo político, chamando para si os holofotes. Na noite de domingo, recebeu o presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), artífice da CPI do Judiciário e demonstrou preocupação com a paralisia da agenda do País por causa das comissões de inquérito. Na tarde de hoje, ele também conversou com o presidente do PMDB, Jader Barbalho (PA), o inventor da CPI dos Bancos.
Nas duas conversas, Fernando Henrique não pediu o recuo no papel de fiscalização do Congresso, mas uma ação efetiva para que retomassem as matérias de interesse do governo. "A idéia é ocupar os espaços, não deixar a opinião pública de frente apenas para as CPIs", explicou um assessor. Da lista apresentada aos dois senadores, constam o projeto que cria o ministério da Defesa - que, do ponto de vista fiscal, representa substituir os atuais cinco ministérios por um -, a votação da Lei de Responsabilidade Fiscal e as reformas política e tributária.
"O presidente não fez nenhum apelo de interferência na CPI", afirmou Jader Barbalho, após almoço no Palácio da Alvorada. Segundo ele, o presidente até foi além: pediu que a comissão não apenas apurasse possíveis irregularidades, como apresentasse sugestões para reestruturar o atual modelo do sistema financeiro, eliminando a possibilidade de vazamento de informações, além de melhorar a fiscalização do BC e dar maior transparência na atuação da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F).
Faz parte da estratégia do governo, aliás, propor tópica e paralelamente aos desvios apurados pela CPI, medidas legais para corrigi-los. O atual presidente do Banco Central, Armínio Fraga, voltaria na quarta-feira (28) do exterior já com a incumbência de propor medidas para isolar os diretores e o presidente da instituição de qualquer influência externa - como dar os seus bens para administração profissional, no período em que permanecessem no comando monetário, e obrigá-los a obedecer à uma quarentena. A idéia também é a de estabelecer regras mais rígidas para a operação de instituições privadas, para evitar o que ocorreu com o banco Marka, que tinha comprometido em fundos 20 vezes o seu patrimônio.

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