Réus de ataque com soda cáustica em Jacarezinho vão passar por júri popular
Mandante e executora, Marlon Lemes e Débora Custódio são acusados de tentativa de feminicídio; advogado de ré afirma que homem coagiu Débora com ameaças
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de junho de 2026
Mandante e executora, Marlon Lemes e Débora Custódio são acusados de tentativa de feminicídio; advogado de ré afirma que homem coagiu Débora com ameaças

Foi marcado para a próxima segunda-feira (8) o julgamento dos acusados de envolvimento no ataque com soda cáustica a Isabelly Aparecida Ferreira Moro, na época com 23 anos, em Jacarezinho (Norte Pioneiro), em maio de 2024. Débora Custódio e Marlon Ferreira Lemes vão passar pelo Tribunal do Júri da Comarca de Jacarezinho, réus por tentativa de feminicídio com qualificadoras. Ambos seguem presos e podem ser interrogados pessoalmente. O advogado de Custódio almeja a absolvição de sua cliente, afirmando que o mandante a ameaçou fisicamente, enquanto o assistente de acusação busca “justiça”.
Isabelly e Lemes namoraram por cerca de um ano e meio, mas se separaram no começo de 2024 e não tiveram mais contato, conforme relato da vítima após o ataque. À época do crime, Lemes e Custódio mantinham um relacionamento, sendo que o homem estava preso por roubo. Ele teria sido o mandante do ataque mesmo cumprindo pena, com sua companheira como executora, motivada por ciúmes. Acusados de tentativa de feminicídio, as qualificadoras incluem uso de recurso que dificultou a defesa da vítima, referindo-se à surpresa e impossibilidade de reação; motivo fútil, considerando que a razão seria insignificante diante da gravidade da conduta; e emprego de meio cruel, provocando sofrimento intenso ou desnecessário a Isabelly.
Os acusados e eventuais testemunhas convocadas podem ser ouvidas a partir de determinação do magistrado. Ilton Inácio, assistente de acusação e advogado de Isabelly, informou que não apresentou rol próprio, “sendo utilizadas as mesmas provas testemunhais já constantes dos autos e produzidas durante a instrução processual”. Com sua atuação, busca “contribuir para que seja feita justiça, respeitando-se o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa”.
Sobre a pena dos réus, caso condenados, Inácio optou por não definir números específicos. “O que se espera é que prevaleça a decisão que os jurados entenderem justa, adequada e compatível com as provas produzidas nos autos”, visou.
Ameaças físicas e coação
Aos 24 anos, Débora Custódio segue presa na Cadeia Pública de Santo Antônio da Platina desde a semana do crime. Jean Campos, advogado da acusada, garantiu que ela não teve a intenção de assassinar a vítima, afirmando que a conduta se enquadra como lesão corporal, e que Lemes a ameaçou para que sua cliente emboscasse Isabelly.
“Ele é o autor intelectual e a forçou a colocar o plano dele em prática de uma forma agressiva por palavras e quando ela ia visitá-lo. Não tem nada que possa ligá-la a um intento homicida, ela nunca teve esse desejo ou qualquer rusga em relação a Isabelly. O fato é que ela estava na mão do Marlon e ia sofrer as consequências se não praticasse o que ele queria”, pontuou Campos.
O advogado informou que existem áudios do réu ameaçando Custódio, enviados de dentro da prisão, em que o homem teria dito: “você não entendeu a parte que eu mandei você fazer? Não quer fazer? Vai voltar pra você”. Disse ainda que tanto sua cliente quanto Isabelly foram vítimas de violência doméstica por parte do acusado em seus respectivos namoros.
Medo de represália
Custódio assumiu a autoria do ataque alegando ciúmes por conta de supostos comentários e provocações que Isabelly teria feito a ela, porém, Campos alegou que o depoimento foi proferido por medo de represália. “Ela não podia contar a verdade e falar que o Marlon estava envolvido, até porque ele falava ‘apaga depois que eu mandar as mensagens, e se der ruim, você nem me conhece’”.
A coação moral irresistível que Custódio teria sofrido será a tese principal da defesa durante o julgamento, com Campos pontuando que, além de “dominar o presídio”, Lemes possuía “soldados aqui fora que estavam vigiando ela”, com provas que serão mostradas aos jurados. O advogado informou que, quando sua cliente for ouvida, irá demonstrar o arrependimento que sente, reiterando que ela “não teve alternativas”.
Campos busca a absolvição de Custódio a partir da demonstração que ela foi coagida, visto que a legislação isenta de pena quem comete um crime sob coação irresistível. Disse ainda que é provável que a mulher não retorne a Jacarezinho, sua cidade natal, caso seja posta em liberdade, por conta da proporção que o caso tomou. “A vida normal, ela não vai mais ter.”
A reportagem entrou em contato com a defesa de Lemes para obter um posicionamento e confirmar se o homem segue na Penitenciária Estadual de Londrina, mas não recebeu retorno.
‘Reconstruir a vida’
Segundo o advogado de Isabelly, a mulher recebeu amplo apoio de familiares, amigos e pessoas próximas ao longo de sua recuperação. No momento, ela mora em Londrina, trabalha com venda de veículos e cursa Direito. Ainda com “marcas profundas da experiência traumática”, Inácio diz que ela “vem retomando gradativamente sua rotina e seus objetivos de vida, demonstrando notável capacidade de enfrentar as adversidades e continuar lutando por seus sonhos”.
O caso
Em 22 de maio de 2024, Isabelly estava a caminho da academia quando foi surpreendida por Custódio, que trajava uma peruca como disfarce, e jogou soda cáustica misturada com água no rosto dela. Imagens de câmeras de segurança flagraram o momento em que a mulher pediu socorro para pedestres e mostraram a suspeita andando pelas ruas de Jacarezinho com uma sacola na mão.
Custódio foi presa dois dias depois. Isabelly sofreu queimaduras no rosto, boca e tórax e foi transferida ao Centro de Tratamento de Queimados do HU/UEL (Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina), onde ficou 18 dias internada, sendo 12 na UTI (Unidade de Tratamento Intensivo), até receber alta e retornar a Jacarezinho.


Heloísa Gonçalves
Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.


