Brasília, 14 (AE) - Ao contrário da expectativa, a reunião de hoje (14) entre o presidente Fernando Henrique Cardoso e os oito ministros ausentes à reunião de quarta-feira, foi "menos tensa".
"As pessoas sabiam o que iriam ouvir e ouviram o que foi dito na semana passada", ponderou o ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, que participou dos dois encontros.
Segundo os ministros presentes, o tema Polícia Federal - que desencadeou a última crise na base aliada e a quase saída do ministro da Justiça, Renan Calheiros, do governo - não foi abordado, nem em "tom de brincadeira".
Calheiros chegou ao Planalto em um carro de senador e não no seu carro oficial de ministro. O fato chamou a atenção dos jornalistas e a assessoria de imprensa do ministro se apressou em dizer que não se tratava de "um sinal do pedido de demissão". "O senador Ramez Tebet foi até o ministério e deu uma carona para o ministro", disse o assessor de imprensa.
Durante a reunião, Calheiros não fez nenhuma intervenção. Encerrado o encontro, ele e Fernando Henrique tiveram uma breve conversa a respeito das acusações de prática de tortura que pesam sobre o novo diretor-geral da PF, João Batista Campelo.
Calheiros concordou com a tese do presidente em dar posse a Campelo e paralelamente prosseguir com a investigação. O ministro e o presidente também concordaram que as denúncias partem de setores de descontentes da PF, que não representam toda a corporação.
O próprio Fernando Henrique havia afirmado - antes da reunião com os ministros - e por intermédio de seu porta-voz, Georges Lamazire, a determinação do governo em checar todas as novas informações envolvendo Campelo. Mas sem impedir sua posse quarta-feira, para não "prejulgar".
De acordo com ministros presentes, na reunião Fernando Henrique apresentou-se bem disposto. E de forma bem discreta, não teria escondido seu alívio com a mudança do foco da crise para o Congresso, com o bate-boca público entre o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP) e o do Congresso, Antonio Carlos Magalhães (PF-BA). "É uma guerra nas estrelas", comentou o presidente, rindo.
"Essa briga não respinga no presidente, é uma briga em outra arena", disse um ministro próximo ao presidente.
O presidente abriu a reunião de hoje, que durou menos de uma hora, fazendo um relato positivo da situação econômica brasileira: inflação e juros em queda, safra agrícola recorde, exportações melhorando. Em seguida, Fernando Henrique cobrou dos ministros - no mesmo tom da reunião passada - total solidariedade ao governo. "É preciso falar como partido e não como governo", repetiu o presidente, avisando também que não aceitará discussões públicas entre ministros.
"O presidente disse que os ministros não deveriam se deixar levar ou dar importância a declarações publicadas em jornais", contou o ministro do Trabalho, Francisco Dornelles. "O presidente também pediu aos ministros que façam uma agenda positiva, divulgando o que o governo tem feito e como tem trabalhado." Dornelles descontraiu a reunião e arrancou risos do presidente ao contar um caso antigo sobre o que chamou de "jornalismo de insinuação" ocorrido no Rio de Janeiro.
Dornelles relembrou que Geraldo Rocha, dono do jornal O Radical, tinha uma richa pessoal com o embaixador Augusto Frederico Schmitt, que escrevia para o jornal Correio da Manhã. E que decidiu envolvê-lo em um crime famoso do Rio, conhecido crime da Sacopan. Quando Schmitt estava dando uma entrevista sobre outro assunto, um repórter do jornal indagou qual seria seu envolvimento no crime. Irritado com a pergunta descabida, Schmitt teria dado um soco na mesa e falado: me respeita, não tenha nada com esse crime.
"No dia seguinte a manchete do jornal foi: Schmitt nega envolvimento no crime da Sacopan", contou Dornelles, afirmando que a matéria trazia a negativa do embaixador, mas ressalvava que ele tinha sido feita de modo intempestivo, o que poderia demonstrar culpa.

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