Paris, 22 (AE) - Dificilmente a reunião de governantes do Mercosul e da União Européia, marcada para junho, no Rio, vai contribuir para avançar na negociação sobre a criação de uma zona de livre comércio entre os dois blocos. Isso explica as fortes críticas do presidente Fernando Henrique Cardoso na abertura do Fórum Empresarial Mercosul-União Européia, no Rio, domingo, às barreiras impostas à entrada de produtos agrícolas do Mercosul no mercado europeu.
A proposta da UE para a cúpula do Rio é simplesmente criar uma "cláusula de encontro para futura negociação", expressão usada pela delegação francesa na Comissão Européia, disposta a neutralizar qualquer avanço nessa negociação. Outros países de tradição agrícola, como Reino Unido e Holanda, também demostram estar reticentes.
Hoje, em Bruxelas, no momento em que os 15 ministros da UE iniciavam a discussão sobre a reforma do Programa Agrícola Comum, pressionados por uma manifestação ruidosa de 30 mil trabalhadores agrícolas, fontes da Comissão Européia confirmavam que a reunião de junho não deverá, ainda, lançar as bases das negociações entre os dois blocos. Sob forte pressão da França, a tendência do Conselho Europeu é adiar a decisão sobre o mandato da negociação com o Mercosul para depois de 28 e 29 de junho.
Paradoxalmente, foi o próprio presidente da França, Jacques Chirac, que primeiro sugeriu essa reunião Mercosul-UE, no encontro com Fernando Henrique, em 1997, em Brasília. Outro aspecto citado para neutralizar a negociação dessa zona de livre comércio com o Mercosul é "a crise que afeta atualmente a locomotiva brasileira, contribuindo para reduzir os ardores liberais da região", segundo observadores europeus.
Outras prioridades - Essa tendência está sendo confirmada por uma publicação oficiosa próxima da própria Comissão Européia, em Bruxelas. A reunião de cúpula do Rio, segundo a nova expectativa, vai ter de esperar os resultados de outras negociações, entre elas a chamada Agenda 2000 e as negociações multilaterais que serão lançadas na reunião ministerial da OMC, no fim de novembro, em Seattle, nos Estados Unidos.
A França e demais países que se mostram reticentes em concluir esses acordos de livre comércio regionais revelam preferência pela abertura de mercados por meio de negociação com cada país e não em bloco.
Desde de julho, quando a Comissão Européia submeteu à aprovação do Conselho da Europa o mandato de negociação de um acordo de livre comércio com os países do Mercosul, o processo se encontra praticamente estagnado em razão da oposição francesa e de outros países agrícolas, que têm forte reação interna.
O Chile, que também negocia um acordo paralelo com a UE, mesmo sendo apenas um membro associado, sofre as consequências do medo que o Mercosul suscita em Estados de forte tradição agrícola europeus.
Também o caso do ex-presidente Augusto Pinochet contribuiu para esfriar as relações entre o Chile e diversos Estados europeus, entre eles França, Espanha e Inglaterra, segundo o Instituto para as Relações entre a União Européia e América Latina, financiado pela União Européia.

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