São Paulo, 25 (AE) - Após cinco horas de reunião, governo, montadoras e trabalhadores não chegaram hoje a um entendimento sobre a prorrogação do acordo de emergência que reduziu os impostos e, consequentemente, os preços dos carros. Os participantes do encontro voltam a se reunir amanhã, às 11 horas
em São Paulo, para tentar fechar uma proposta.
O impasse nas negociações envolve todos os setores que participam da discussão. O governo não quer manter os impostos reduzidos nos mesmos níveis do acordo que termina amanhã. As montadoras não aceitam conceder bônus (desconto fixo) para todos os automóveis. Os trabalhadores querem que a garantia de emprego seja dada por empresa e não pelo setor, o que os fabricantes de autopeças não aceitam.
A proposta do governo, segundo o secretário de Política Industrial do Ministério do Desenvolvimento, Hélio Mattar, é de que o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos carros populares passe dos atuais 5% para 7% e o dos carros médios de 17% para 20%.
Bônus - Com essa proposta as montadoras só aceitam conceder um bônus de R$ 350,00 para os carros populares e nenhum desconto para os modelos de médio porte. Essa proposta, de qualquer forma
não é consenso entre as fabricantes. A Ford só deve anunciar amanhã se aceita ou não conceder o bônus e alegou na reunião que não pode deixar de repassar a elevação tributária aos preços finais.
Surgiu ainda a proposta dos revendedores: aumento escalonado de IPI. Neste caso, a alíquota do carro popular seria mantida em 5% em junho, passando para 7% em julho e para 9% em agosto. Segundo o presidente da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), Hugo Maia, isso anteciparia a demanda. Mas a indústria discorda desta proposta.
O governador Mário Covas também informou que, a princípio, o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) dos carros, hoje reduzido de 12% para 9%, deve subir para 10% no novo acordo.
Emprego - O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Marinho, disse que vai insistir para que o governo mantenha os níveis atuais de redução dos impostos. Do contrário, disse ele, os preços dos carros voltam a subir e as vendas devem cair. "Com a perspectiva de queda nas vendas é difícil negociar manutenção do emprego", afirmou.
O presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes (Sindipeças), Paulo Butori, disse que não há como garantir emprego se as vendas não reagirem.
A Central Única dos Trabalhadores (CUT) quer garantia de emprego por empresa para evitar demissões em massa localizadas. Mas o Sindipeças disse que não tem como garantir isso. O setor trabalha com ociosidade elevada em razão da falta de encomendas provocada pela retração no mercado de veículos. A indústria de autopeças tem cerca de 270 mil trabalhadores e as montadoras, pouco mais de 90 mil.
Marinho insistiu ainda que não houve queda de arrecadação de impostos, como informa a Receita Federal. "Eu desafio os técnicos da Receita a analisar os dados com os nossos técnicos para provar que a arrecadação aumentou", afirmou.
O secretário Hélio Mattar, que levará as propostas da reunião de hoje para serem submetidas ao presidente Fernando Henrique Cardoso, argumentou que não há como manter a arrecadação contando apenas com maior volume de vendas.
Preços - Para o vice-presidente de Assuntos Corporativos da Volkswagen, Miguel Jorge, mesmo que o acordo emergencial permita aumentos de preços, a industria não terá como fazer reajustes porque o mercado está muito desaquecido.
O mercado está parado, destacou o executivo, por conta das discussões entre o setor e o governo. "A notícia de que haverá um acordo acaba provocando um impacto psicológio e o consumidor deixa de comprar", destacou.
Caso os participantes cheguem a um consenso amanhã, a redução dos impostos deve valer por mais 90 dias, prazo em que as montadoras se comprometem a não reajustar os preços. Os trabalhadores das montadoras teriam garantia de emprego por mais 120 dias. (Colaborou Marli Olmos)

mockup