Recife, 26 (AE) - Após 15 dias de discussões, a reunião dos países signatários da Convenção de Combate à Desertificação terminou sem avanços concretos, apesar do empenho dos negociadores brasileiros em implementar ações e estabelecer cronogramas e metas específicas. "Consideramos positivo, de qualquer forma, o Brasil ter conseguido incluir no documento final o prazo para que os países apresentem propostas concretas de combate à desertificação, em lugar de voltar a discutir a desertificação em si", disse o ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho.
O documento final - chamado Iniciativa de Recife - reconhece o enorme empenho dos 41 países africanos que elaboraram seus Planos de Ação Nacionais, com o apoio do secretariado da convenção. Mas deixa para a próxima reunião, marcada para outubro de 2000, em Bonn, na Alemanha, a elaboração de uma declaração com os compromissos a serem assumidos pelos governos. O máximo que se conseguiu incluir no texto foi que "os esforços para prevenir e controlar a desertificação não tem sido suficientes para impedir seu avanço".
Ficou acertada, além disso, a elaboração dos planos de ação dos países da América Latina e Caribe, a serem apresentados até a próxima reunião. "A Convenção de Combate à Desertificação é a única elaborada desde a Rio-92, que contempla o desenvolvimento sustentável", disse a representante da Guiné, Alison Drayton, para quem é necessário estreitar relações com os grupos que implementam as Convenções de Mudanças Climáticas e de Biodiversidade e a Agenda 21, os três principais documentos assinados no Rio de Janeiro, na Conferência de Meio Ambiente de 1992.
Os últimos dias da reunião sobre desertificação, em Recife, foram marcados por um impasse entre o grupo dos países em desenvolvimento - chamado Grupo dos 77 mais China - e a União Européia. A questão central do impasse era a autonomia do Mecanismo Global, o fundo comum criado em 1997 para financiar projetos de luta contra a desertificação. O Grupo dos 77 mais China queria aumentar a contribuição para o fundo (onde o controle dos doadores sobre uso dos recursos é menor), enquanto a União Européia considerava mais importante investir direto na implementação da convenção. A disputa se prolongou noite adentro.
Ongs - A Articulação no Semi-árido - o grupo local de ONGs, igrejas cristãs, sindicatos, cooperativas e associações - também divulgou um documento, a Declaração do Semi-árido, no qual reconhece a importância da reunião de Recife para aumentar a conscientização pública sobre a desertificação.
As ONGs ressaltam ainda a capacidade das populações do sertão nordestino de conviver com a seca, com ênfase na captação local de água de chuva e sem necessidade de grandes obras, como a transposição das águas do São Francisco, "solução de altíssimo risco ambiental e social", segundo o documento.
Para a Articulação, as prioridades são a conservação, uso sustentável e recomposição ambiental dos recursos naturais do semi-árido e a quebra do monopólio de acesso à terra, água e outros meios de produção.

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