Réu no processo que envolve brasileiros nega estar foragido
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domingo, 09 de abril de 2000
Por Renan Antunes 
Miami, 10 (AE) - O misterioso empresário brasileiro James Jamil Deegan, naturalizado americano, de 65 anos, é procurado pela Justiça americana desde o dia 30 de março, acusado de lavagem de dinheiro do narcotráfico. Jamil é seu nome brasileiro. James é o nome que adotou depois que adquiriu a cidadania americana. Ele é réu no processo 99-8150 da Corte do Distrito Sul da Flórida - o mesmo que envolve Oscar de Barros e José Maria Teixeira Ferraz, empresários brasileiros radicados na Flórida, presos em Miami pelo FBI, na sexta-feira da semana passada, sob acusação de terem lavado US$ 500 mil provenientes do tráfico de drogas.
No inquérito do FBI, ainda com muitos documentos sob sigilo, Deegan aparece como elo entre empresários e políticos brasileiros no eixo Miami - Nova York e o narcotráfico.
Ele também está ligado aos escândalos do TRT paulista e do dossiê das Ilhas Cayman, de 1998, uma coleção de papéis de origem duvidosa que sugeria a existência - nunca comprovada - de contas secretas no exterior do presidente Fernando Henrique Cardoso, do governador Mário Covas, do ministro da Saúde José Serra e de Sérgio Motta, ex-ministro das Comunicações.
Deegan não compareceu à audiência de Barros e Ferraz no Tribunal Federal no centro de Miami, hoje pela manhã. À tarde, de Nova York, em local não-revelado, ele concedeu entrevista ao Grupo Estado, por celular: Grupo Estado - O nome do senhor aparece em três escândalos ao mesmo tempo. Como explica isso? James Jamil Deegan - Em tudo o que ocorre por aqui, sempre metem meu nome. Está na hora de dar entrevistas e falar. GE - O senhor está foragido da Justiça ? Jamil - Não. Neste país não adianta fugir, ainda mais no meu caso, porque já fui condenado. O FBI sabe onde me achar. Eles têm meu número e me chamaram. Já estive em contato com eles e vou me apresentar à Justiça quando o promotor do caso (Joe Capone) e meus advogados entrarem em acordo sobre a data. Deve ser na semana que vem. GE- Qual é seu envolvimento com Oscar de Barros e José Maria Teixeira Ferraz? Jamil - São meus amigos. Tivemos negócios no passado, mas nada a ver no caso atual. Esse menino (Ferraz) tinha comércio na Rua 46 (a dos brasileiros, em Nova York). Não acredito que eles tenham me envolvido em nenhuma denúncia, mas vou a Miami para responder o que for necessário. GE - O chamado dossiê Cayman é um ponto em comum entre os três. Qual o seu papel no caso ? Jamil - Esses dois (Barros e Ferraz) viram ou criaram a papelada. Estavam com ela desde o início. Não me pergunte a autoria, que eu mentiria se dissesse com certeza que sei. Eu nunca vi o tal dossiê. Mas tive parte: ofereci a papelada para o Leonel Brizola. Ele respondeu simplesmente: "Não precisamos disso para ganhar a eleição". Como se sabe, acabou perdendo. GE - O dossiê era quente? Jamil - Não sei. Nunca vi. GE - Quanto custava o material? Jamil - Tinha "n" preços. Barros e Ferraz faturaram US$ 500 mil no varejo, vendendo para políticos sem expressão, mas depois o escândalo estourou e eles sumiram. O dinheiro grosso que eles queriam arrancar, nunca conseguiram. Que eu saiba, nem Brizola nem Lula pagaram coisa nenhuma. GE - Como o senhor vê sua credibilidade ? Jamil - Nunca escondi de ninguém que fui preso e cumpri pena nos Estados Unidos por crime de lavagem de dinheiro. Era outra época e outro dinheiro (risos). Mas, paguei minha dívida com a sociedade. Saí da cadeia em 1990. De lá para cá trabalho como "trader" (intermediário em exportação). GE - O senhor é sempre descrito como mafioso e misterioso, ligado a vários políticos... Jamil - Tenho um restaurante e sociedade em outro. É só. Vivo disso. Declaro imposto de renda. O governo sabe. O problema é que a imprensa não me conhece. Eu tive 18 profissões na vida. Uma delas, há mais de 40 anos, foi ser doleiro, em Curitiba. Mas
cada vez que mencionam meu nome, dizem "o doleiro Jamil Deegan". Ora, é uma bobagem, por isso nunca dou entrevistas. Por que não dizem "o trader Jamil Deegan"? GE - Voltando ao dossiê Cayman... Jamil - Fui muito criticado naquele episódio, mas eu não sabia nada. Meu erro foi ter ficado quieto. Deveria ter dado entrevistas e explicado tudo. Mas fiquei chateado com o cerco dos repórteres e acabei piorando a minha imagem. GE - Quem são os políticos clientes dos empresários Barros e Ferraz? Jamil - Eu não sei e eles não dizem, porque é da essência do negócio. O silêncio é recompensado e deixa as pessoas do ramo muito ricas. Um exemplo, agora os dois estão em dificuldades para pagar a fiança, mas tenho certeza de que têm dinheiro. Só não podem usá-lo é porque está congelado em alguma conta. GE - Quais são suas ligações com Paulo e Flávio Maluf. Jamil - Zero. GE - Qual o envolvimento dos irmãos Ferraz com o TRT paulista ? Jamil - Não sei, mas estou fora, foi um golpe grande demais.


