Londres, 03 (AE) - A Associação dos Países Produtores de Café (APPC) deve iniciar em junho a execução do plano de retenção de exportações numa tentativa de elevar o preço do produto. Os detalhes ainda não foram divulgados oficialmente, o que vem gerando muita especulação no mercado internacional. Mas a retenção deve seguir o mesmo padrão das duas anteriores realizadas pela APPC, ou seja, através do sistema de gatilhos. Dependendo do preço do produto, os países exportadores reterão um percentual de suas exportações. Ao se atingir o patamar de preço desejado, as exportações serão liberadas.
"Nosso objetivo é montar um plano de retenção baseado no consenso e muito bem fundamentado na sua possibilidade de execução", disse o brasileiro Robério Silva, secretário-geral da APPC. Mas antes de ser implementada, a retenção deverá ainda cumprir com alguns aspectos legais e políticos. O estudo técnico sobre a retenção, elaborado por Silva, está sendo discutido por representantes dos 14 países membros da entidade, responsáveis por cerca de 75% da produção mundial de café, hoje e amanhã, em Londres.
Até mesmo o ministro do comércio da Costa do Marfim, país que andava afastado das atividades da APPC, deverá participar do evento. No final do encontro, os delegados devem recomendar a aprovação da retenção numa nova reunião da APPC, que deverá ser realizada mais para o final de abril. Deverão ser convidados a participar desta reunião final pelo menos três países produtores - México, Vietnã e Guatemala.
A estratégia da APPC é a de que esses países também participem formalmente do plano de retenção. "Sem Vietnã, México e Guatemala será muito difícil executar o plano de retenção", diz Robério. Segundo ele, os três países foram contatados preliminarmente pela APPC e demonstraram uma reação positiva em relação ao plano. Após a reunião da semana passada, com o projeto técnico aprovado, os contatos deverão ser intensificados. Silva poderá ter que ir até ao Vietnã para apresentar o plano de retenção às autoridades do setor no país.
Entre a maioria dos membros da APPC há um consenso sobre a necessidade de se implantar rapidamente a retenção como forma de alavancar os preços do produto no mercado internacional. Isso não impede que ocorram discordâncias sobre detalhes. Mas após a reunião de abril, na qual dois terços dos membros da entidade terão que aprovar o plano, cada país terá que implementar a retenção de acordo com o que foi estabelecido em Londres.
A retenção deverá seguir a estratégia geral do primeiro plano, que foi aprovado junto com a criação da APPC em setembro de 1993, mas com a atualização de preços e talvez mudanças de percentuais e indicadores. Na época, os preços do café estavam muito baixos e os países membros iniciaram a retenção de uma parte proporcional de suas exportações através do sistema de gatilho. Ele previa que 20% dos volumes exportados seriam retidos se a média móvel do preço indicativo composto da OIC permanecesse abaixo da faixa de 75 cents de dólar por libra peso.
Caso essa média subisse para a faixa entre 75 cents e 80 cents, a retenção cairia para 10%. Ao atingir os 80 cents, a exportação era liberada. A primeira retenção foi colocada em prática em outubro de 1993. Em março do ano de 1994, os preços atingiram os 75 cents por libra peso. Em abril, houve nova elevação do preço, ultrapassando os 80 cents, e a retenção foi suspensa. Nos meses seguintes, as geadas que assolaram importantes regiões cafeeiras provocou um forte aumento de preços, que durou pouco.
No final de 1994, os preços voltaram a cair e a insatisfação voltou a predominar entre os produtores. O sucesso da primeira retenção promovida pela APPC não foi repetido na segunda tentativa, em julho de 1995. O mercado reagiu mal, os bancos fecharam as torneiras dos financiamentos e a estratégia fracassou. Após isso, a APPC criou um programa de exportação, com cotas para cada país, para tentar estabilizar o mercado.
Mas a estratégia, adotada ao longo dos últimos anos não surtiu os efeitos previstos, com o Brasil ultrapassando suas metas de exportação. Diante dos tropeços do passado, a APPC quer evitar que a retenção seja comprometida pela falta de credibilidade. A organização pretende contratar através de licitação uma agência internacional respeitada para monitorar a sua implementação. Não é descartada também a possibilidade de que a estratégia de retenção seja adapatada no futuro para agir como um fator permanente de estabilização de preços do café no mercado internacional.

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