Resultado parcial indica que haverá segundo turno no Chile Do enviado especial LOURIVAL SANT'ANNA
Santiago, 12 (AE) - A eleição presidencial no Chile vai ser decidida no segundo turno, a julgar por resultado parcial apresentado hoje (12). Contados 740 mil votos, ou cerca de 11% das mesas eleitorais, Ricardo Lagos, o candidato da coalizão de governo Concertación, estava na frente, com 48% dos votos válidos, seguido muito de perto por Joaquín Lavín, candidato da frente de direita Aliança pelo Chile, com 47%. A candidata do Partido Comunista, Gladys Marín, seguia em terceiro, com 2,9%.
O resultado parcial foi divulgado às 19h (20h em Brasília) pelo subsecretário do Interior, Guillermo Pickering. A apuração continuará durante a noite. O resultado, se confirmado, representa um avanço da votação da direita em relação às eleições presidenciais anteriores. Em 1993, os dois candidatos da direita, José Piñeira e Arturo Alessandri, tiveram, somados, 34% dos votos. O presidente Eduardo Frei, da Concertación, também foi eleito no primeiro turno, com 58%.
Em 1989, Patricio Aylwin, igualmente apoiado na coalizão entre a Democracia Cristã e o Partido Socialista, também foi eleito no primeiro turno, com 54%, na primeira eleição depois do golpe de 1973. Os candidatos da direita, Hernán Buchi e Francisco Javier Errázuriz, receberam, juntos, 44%.
No outro extremo do espectro ideológico, o Partido Comunista perdeu votos. Em 1993, o candidato comunista, o padre Eugenio Pizarro, teve 4,7% dos votos válidos.
Durante a campanha, Lagos, de 61 anos, formado em direito e doutor em economia pela Universidade de Duke, na Carolina do Norte, comprometeu-se com o equilíbrio fiscal e prometeu "crescimento com igualdade", enfatizando a necessidade de promover melhor distribuição de renda.
Lagos, ex-ministro da Educação (1990-92) no governo do presidente Patricio Aylwin e de Obras Públicas (1994-98) no atual governo de Eduardo Frei, procurou realçar, na campanha, sua qualidade de político experiente e criar um perfil de "estadista".
Vestido de terno escuro sob o sol forte da manhã de domingo, Lagos chegou às 10h30 para votar no Instituto Superior do Comércio, no centro de Santiago, declarando-se "tranquilo e seguro". "As coisas estão indo muito bem", assegurou. "Não me cabe a menor dúvida (quanto à vitória)."
Depois de votar, Lagos afirmou: "O Chile se reencontrou com sua história." Lagos foi o primeiro candidato do Partido Socialista à presidência desde a eleição de Salvador Allende, deposto pelo golpe militar de 1973. "Durante 17 anos, não foi possível votar", lembrou Lagos, referindo-se ao período da ditadura. Mas completou: "O Chile agora se volta para o futuro."
Lagos tem-se empenhado em exorcizar o estigma da esquerda preocupada em acertar as contas com o passado, da mesma maneira que Lavín, assessor econômico do governo militar, procurou desvincular sua imagem do ex-ditador Augusto Pinochet. Numa espécie de acordo tácito, os dois candidatos praticamente não falaram do passado durante toda a campanha.
Lavín, 46 anos, economista com mestrado na Escola de Chicago, o berço do monetarismo de Milton Friedman, também manteve firme compromisso com o equilíbrio fiscal e o crescimento econômico. Ex-administrador da comuna de Las Condes, bairro elegante de Santiago, cargo para o qual se reelegeu em 1996 com 78% dos votos, Lavín procurou apresentar-se como candidato "do povo", mais simples e informal, além de bom administrador.
Antes de votar, Lavín, membro do movimento ultracatólico Opus Dei, foi com a mulher, María Estela León, e os sete filhos a uma missa na Paróquia Santa Maria, em Las Condes. O candidato da Aliança pelo Chile chegou às 10h20 para votar na Scuola Italiana
em traje esporte, vestindo uma camisa amarela de manga comprida. Também declarando-se "confiante e tranquilo", ele acrescentou: "Espero que os chilenos joguem pela mudança."
Mais tarde, em entrevista ao canal TVN, Lavín disse que essa seria uma escolha "mais entre pessoas do que entre partidos", garantindo que não faria um governo "político-partidista" e que vários democrata-cristãos lhe haviam dito que votariam nele.
No epicentro da divisão da DC está o presidente do Senado, Andrés Zaldívar. O senador foi derrotado por Lagos na disputa pela candidatura presidencial, na primária da Concertación, em maio. O presidente Eduardo Frei, também da DC, é acusado de não se ter empenhado na escolha de Zaldívar. O senador, no entanto, reafirmou seu apoio a Lagos, ao votar, às 11h, também no Instituto Superior do Comércio. Frei, por sua vez, enfatizou hoje, depois de votar, às 13h15, na Scuola Italiana, o êxito da coalizão formada pela DC e o PS, que governa o Chile desde a restauração da democracia, em 1990. Foi a primeira vez, no entanto, que a DC apoiou candidato de outro partido à presidência desde que foi fundada, em 1958.
Também foi a primeira vez no Chile que mulheres concorreram à presidência. A comunista Gladys Marín votou ao meio-dia num colégio do bairro de Cerro Navia. "Estou contente porque terei grande votação, a serviço dos trabalhadores, das mulheres e dos jovens, contra o sistema neoliberal, que tanto sofrimento tem causado", disse Marín, a quem as pesquisas de intenção de voto atribuíram no máximo 7%.
"Vamos acabar com a prepotência de achar que o voto pertence apenas à Concertación e à direita", acrescentou Marín, cujo Partido Comunista não tem representação no Parlamento.
A outra candidata mulher, a ambientalista Sara Larraín, disse que esperava obter 1% dos votos, "para lançar um movimento político alternativo". O pinochetista Arturo Frei Bolívar, ex-democrata-cristão, a quem as pesquisas também atribuíram cerca de 1% dos votos, declarou que estava "lutando para ir para o segundo turno".
Já o candidato humanista Tomás Hirsch, na mesma faixa de intenção de votos, segundo as pesquisas, afirmou que seria bom para a esquerda que houvesse um segundo turno. Não era o que pensava Ricardo Lagos, mantido como favorito pelas principais pesquisas desde o ano passado. Mas os esquerdistas fora do PS não consideram Lagos membro da esquerda.





