Diversidade e tradição são as principais marcas dos restaurantes de Maringá. Dedicada à comida típica ou no estilo self-service, a gastronomia na cidade surpreende turistas e atende aos mais variados gostos. No lugar do culto aos ‘‘grandes chefes’’, Maringá abriga famílias que se dedicam à cozinha e conseguem um espaço importante no tão disputado circuito de restaurantes.
A ousadia de Eid Kamel El Ghoz, por exemplo, conquistou a fidelidade dos clientes. Dono do Monte Líbano, restaurante que existe há 36 anos, El Ghoz mostrou modernidade para uma cidade ainda muito jovem. Foi o primeiro a ter em Maringá um restaurante de porta fechada, com ar-condicionado e telefone na mesa. O primeiro endereço foi na antiga rodoviária. Há 21 anos, o Monte Líbano foi para a Avenida São Paulo, em frente ao Parque do Ingá, em um dos endereços mais movimentados da cidade.
Uma foto na parede - no meio de uma coleção que inclui lembranças familiares e poses com artistas famosos - revela a transformação da residência da família no atual Monte Líbano. ‘‘Onde estamos agora era a varanda de minha casa’’, mostra Eidmar Kamel El Ghoz, um dos filhos do pioneiro, comparando a entrada do restaurante com a foto antiga da parede.
O segredo do Monte Líbano está na tradição. O balcão e os copos de cristais são exigências do pai preservados com muito orgulho pelos filhos. Hoje, o patriarca El Ghoz apenas visita o restaurante. No comando estão os filhos Eidmar e Júnior.
Sérgio Takao Sato, nome japonês e comida mineira no Kampai: o prato premiado pela revista paulista Gula ‘Entrada e saída’ A pinga de alambique envelhecida por três anos em barril de carvalho e o café tipo exportação, torrado e moído no próprio Monte Líbano, garantem um serviço único de ‘‘entrada e saída’’ do restaurante. Para servir os 10 pratos frios e 11 quentes, a cozinha conta com a dedicação de Maria Egídio, que há 30 anos trabalha para a família El Ghoz. Eidmar também arrisca e se diz um autodidata na cozinha. ‘‘Gosto de cozinhar e não fico preso ao cardápio tradicional. Faço pratos diferentes com temperos libaneses’’, destaca.
A tecnologia e a correria urbana ainda não foram suficientes para substituir a tradição e gosto pelo bom paladar. Outra prova disto é a Taberna Portuguesa, do casal Neuza e Manoel Firmino Câmara. Incluído no Guia Quatro Rodas desde 1993, o restaurante oferece pratos típicos portugueses e representa um dos orgulhos da cidade. ‘‘Somos conhecidos em quase todo o País, não só pela indicação constante em uma revista famosa, mas principalmente, pela qualidade da nossa comida portuguesa’’, diz Câmara, se referindo ao bolinho de bacalhau e ao arroz de Braga, ícones da cozinha de Portugal.
Público variado Segundo Câmara, ou Manoel Firmino, como ele mesmo prefere, o público do Taberna é variado. ‘‘Durante a semana é composto de viajantes, pessoas de fora ou da região que passam por Maringá, e no final de semana pelas famílias da cidade’’, lembra. Há 11 anos com o restaurante, o cozinheiro português mais famoso de Maringá diz que enfrenta as panelas sempre acompanhado da mulher. ‘‘Nós somos o segredo’’, garante Manoel Firmino.
A mistura de segredos com tradição ajudam a compor a variedade do serviço gastronômico de Maringá. Makoto Sato sabe disso. Ele é proprietário de um dos restaurantes mais famosos da cidade, o Nápoli.
Ponto de referência no centro da cidade e de encontro de políticos e afins na Boca Maldita, o Nápoli existe há 32 anos, sendo que há 19 está com Makoto. Neste restaurante não existe a figura da comida típica, mas sim do encontro com colegas, das fofocas políticas e do grande afluxo de pessoas - cerca de 200 refeições diárias - na hora do almoço. ‘‘Fizemos uma reforma e optamos por uma decoração aconchegante’’, diz.
Crise Segundo Makoto, somente a crise econômica e o desemprego são capazes de inibir o movimento dos restaurantes da cidade. Nesta hora entram em cena, afirma, pessoas inexperientes e do mercado informal tentando estabelecer um negócio. ‘‘A seleção no entanto, acaba sendo natural, pois quem não é do ramo não consegue ir adiante’’, completa Makoto, que também é dono do Calçadão, um outro restaurante self-service da cidade que oferece o tradicional arroz com feijão, carne e salada, junto com variadas comidas japonesas. ‘‘Para administrar um restaurante é preciso ser forte e estar bem atualizado’’, completa.
Maringá tem ainda restaurantes especializados na recepção de turistas como o Casarão, localizado no centro, e em rodízios de carnes como a Churrascaria Pavan, na saída para Campo Mourão. Outros optam pelo estilo self-service, aliando o espaço do restaurante para a locação de festas e eventos com o serviço de buffet do Galeto Sulino. Para Makoto, que faz parte da diretoria do Sindicato dos Restaurantes e Hotéis de Maringá (Sindihotel), a estrutura do município na área gastronômica é adequada e bastante diversificada.
Mesmo com a crise, Maringá ainda consegue conciliar com tranquilidade comida japonesa, portuguesa, italiana, libanesa, valorizando também, a brasileira. Tanto que Sérgio Takao Sato, que apesar do sobrenome não tem parentesco com Makoto, optou pela comida mineira. Takao conta que conheceu a comida típica de Minas Gerais no período em que trabalhou com a empresa de engenharia Mendes Júnior em 1981 no Iraque. ‘‘Foram seis anos com esta empresa mineira, que servia aos funcionários a comida da terra natal’’, lembra.
Com vontade de investir no ramo, mas sem disposição para o trivial, Takao instalou o restaurante mineiro em estilo self-service. Ele quis um diferencial para o dia a dia e conseguiu. Um dos pratos servidos no Kampai, o ‘‘Vaca Atolada’’ foi premiado pela revista paulista Gula. ‘‘Na região Sul, foram selecionados apenas cinco pratos e o do Kampai foi um dos escolhidos’’, comemora Takao. O prato de nome exótico é uma mistura de carne com batata. ‘‘É diferente por que sai do rol mais típico da comida mineira que consiste no tutu, frango com quiabo, torresminho e costelinha’’, avalia.Fotos: James NegriniDescontraçãoMakoto Sato, do Nápoli: no restaurante não existe a figura da comida típica, mas sim do encontro com colegas e das fofocas políticasMarta Medeiros
Especial para a Folha

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