Marcos Zanatta
De Maringá
A restauração da pinturas de igrejas, algumas centenárias, requer não apenas a prática no manuseio de pincéis e da mistura de tintas. É preciso muita paciência e conhecimento da história da igreja, da religião e do catolicismo. ‘‘Demorei 10 anos para chegar a resultados próximos da perfeição’’, revela o restaurador e artista Pedro Lombardi, 70 anos, que mora em Astorga (40 km a sudeste de Maringá).
Lombardi restaura igrejas em vários Estados. Ele trabalhava como pintor e exercia outras atividades quando conheceu alguns restauradores do interior de São Paulo. ‘‘Gostaram do meu trabalho e passei a trabalhar com eles. Isso há 30 anos’’, recorda. Dois anos depois, já fazia seus próprios trabalhos e se firmava no mercado.
‘‘Uma reportagem da Folha de Londrina, acho que em 1987 ou 1988, me levou para outras regiões’’, conta. No Sul do Paraná, onde existem muitas igrejas com pinturas, ele conheceu o bispo de Curitiba, dom Pedro Fedalto. ‘‘Dom Pedro me levou para restaurar muitas igrejas na região, inclusive a de Rebouças, onde ele nasceu’’. Lombardi calcula que já trabalhou em torno de 40 igrejas. ‘‘É um trabalho delicado e muito demorado’’, explica.
Em média, as pinturas de uma igreja demoram até um ano e meio para ser restauradas. Mas tudo depende da complexidade da decoração. Lombardi lembra que boa parte das pinturas nas igrejas que trabalha foi feita por artistas italianos, supervisionados por padres exigentes. ‘‘Somos obrigados a pesquisar muito para chegar ao resultado esperado’’, afirma.
A maior dificuldade na restauração é encontrar as cores ideais e refazer os detalhes como os originais. Lombardi diz que achar a cor ideal é bem mais fácil hoje em dia. ‘‘Antigamente tínhamos que fazer muitas misturas, hoje o computador acha a tonalidade ideal, mas sempre é preciso a mão do profissional’’.
As obras de arte pintadas em paredes de igrejas normalmente são deterioradas pelo tempo. Quando não existem mais condições de restaurar, Lombardi reúne as informações que consegue com padres e religiosos da cidade, junta ao conhecimento que possui sobre o tema e faz o projeto.
Durante quatro anos ele estudou a história da Bíblia e fez cursos sobre a formação da Igreja. ‘‘Refiz toda decoração da Igreja Nossa Senhora do Rosário, do Largo do Paissandu, em São Paulo, e todos ficaram satisfeitos’’, conta. Dependendo da obra, Lombardi consulta até o setor de Patrimônio Histórico do município.
O objetivo, explica, é não fugir do original e da história da igreja trabalhada. Segundo Lombardi, muitas igrejas antes da restauração precisam passar por obras. ‘‘A maior parte dos estragos nas pinturas é causada por infiltrações. É preciso acabar com a umidade para refazer a obra’’, explica. ‘‘Depois de pronta, a pintura precisa ser preservada’’, aconselha. Lombardi também faz pinturas sacras. Muitas igrejas que trabalha na restauração recebem painéis com passagens bíblicas nas áreas ‘‘vazias’’.
Apesar de também pintar, Lombardi garante que prefere a restauração. ‘‘Me especializei nisso, e é um trabalho de paciência e resultado’’, afirma. O valor da restauração depende do tempo gasto pela equipe, que é composta por outros dois ajudantes. Ele diz que é difícil falar em valores porque, além do tempo, leva em conta as condições da obra a ser restaurada. ‘‘Nós colocamos um valor conforme o tempo e quase sempre entregamos dentro do prazo previsto’’. Normalmente, confessa Lombardi, o resultado final é aprovado pelos padres e pela comunidade.
Em Astorga, onde é considerado pioneiro, ele refez o painel do altar da igreja pintado pelo artista plástico Henrique Aragão. ‘‘Os padres e os fiéis não aprovavam os nus de anjos e personagens e nós conseguimos tapar tudo sem descaracterizar a obra’’. O próximo trabalho de Lombardi, talvez no início do ano que vem, é de continuar a restauração de restauração de uma igreja de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, onde ele passou os últimos 18 meses restaurando painéis e refazendo pinturas do teto.Pedro Lombardi, de Astorga, é reconhecido em vários estados pelos trabalhos que realizou nos últimos 30 anos
Ossamu KandaOssamu KandaPedro Lombardi, 70 anos, mostra (acima) um dos trabalhos que restaurou na igreja matriz de Astorga; o altar também foi decorado pelo artista

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