Rio, 22 (AE) - Depois de três anos de uma minuciosa reforma de restauração, a Igreja da Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores
uma jóia da arquitetura religiosa nacional de 250 anos, será reaberta amanhã (23) ao público. A recuperação da igrejinha, incrustada na esquina da Rua do Ouvidor e Travessa do Comércio, no centro do Rio, custou R$ 1 milhão e foi financiada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que desembolsou a maior parte dos recursos (R$ 900 mil), e pela Fundação América Express. A orientação de todo o processo coube à Fundação Roberto Marinho (FRM) e ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Santificado em 1750, o templo tem uma decoração que foge ao estilo barroco de outras igrejas construídas na mesma época. Isto porque, em 1870, ela passou por uma grande reforma, comandada pelo arquiteto Antônio Pádua e Castro, que incorporou elementos do neoclássico e do rococó tardio. Ornatos multicoloridos de flores sob um fundo bege se estendem por colunas, paredes e, principalmente, pela nave da igreja. Um efeito de luz e sombra é garantido por três clarabóias sobre o altar.
Os restauradores desenvolveram um projeto de iluminação especial para a igreja. "A luz faz com que toda a construção seja valorizada", explica a gerente de projetos da FRM, Mariângela Castro, que agora procura parceiros na iniciativa privada para adotar o templo. "Apesar do trabalho de manutenção
realizado pela irmandade da Ordem da Lapa dos Mercadores, encontramos a igreja muito suja antes da restauração e, agora, a idéia é manter permanentemente um trabalho de preservação." O tom barroco da Lapa dos Mercadores permanece nas imagens, como as de São Joaquim, Santana e do medalhão, sobre o altar-mor, que reproduz a Virgem Maria, Deus e Jesus Cristo. O neoclássico passou a ser o estilo da fachada da igreja, que, durante a reforma de Pádua e Castro, ganhou um frontão triangular, uma torre sineira, um grupo de imagens de santos e um segundo medalhão, que também traz a Virgem Maria esculpida em mármore de Lioz.
Segundo o historiador Milton Teixeira, um dos maiores especialistas em Rio de Janeiro, o medalhão guarda uma história curiosa. "Ele estava escondido sob uma casa que foi derrubada para a ampliação da igreja", conta. Teixeira acredita que os frades da Ordem 3ª de São Francisco da Penitência, dona da casa demolida, haviam escondido a obra para que não fosse usurpada pelos franceses, durante a ocupação de 1711.
Curiosidades históricas não faltam nos dois séculos e meio de existência da igreja, que começou a ser erguida em 1747, por um grupo de devotos comerciantes de Portugal. A mais conhecida é a da bala de canhão que atingiu a imagem da Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, que ornamentava o topo do templo, durante a Revolta da Armada, entre setembro de 1893 e fevereiro de 1894. Os marinheiros do encouraçado Aquidabã, que lutavam contra o governo do marechal Floriano Peixoto, não imaginavam que seriam a causa de um dos cultos mais estranhos já registrados pela crônica carioca.
A bala disparada do encouraçado, fundeado na Baía de Guanabara, deveria atingir o Palácio do Itamaraty, mas errou o alvo e acertou a santa da igreja, que estava a cinco quilômetros dali. A imagem, feita em mármore de Lioz, caiu de uma altura de aproximadamente 25 metros e, por milagre, não se espatifou. O único dano registrado foi uma lasca em sua mão direita. "Os fiés interpretaram aquilo como uma mensagem divina e, a partir de então, passaram a cultuar não só a Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, como a própria bala, que também achavam ser milagrosa", conta Teixeira. A bala e a imagem estão hoje guardadas na sacristia da igreja, que também será aberta ao público.

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