Restauração de monumento ensina profissão à menino de rua
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de fevereiro de 1999
por Biaggio Talento 
Salvador, 28 (AE) - Os olhos da adolescente Conceição de Oliveira Freitas, de 18 anos, brilham quando ela fala do estuque
uma velha técnica artesanal que consiste em usar argamassas de cal, gesso e cimento para dar forma a elementos de decoração. Nunca soubera da técnica há até bem pouco tempo, agora aprendeu o ofício e se orgulha. Suas preocupações eram outras há dois anos. àrfã, menina de rua, passou muito tempo numa instituição de atendimento a menores carentes, até descobrir a Escola Oficina, projeto que tenta resolver dois problemas graves da capital baiana: a preservação do patrimônio histórico e a questão do menor carente.
Aparentemente, são coisas sem qualquer relação, mas a criatividade de um grupo de arquitetos e educadores está conseguindo essa união, fruto de uma constatação até óbvia. Por que não tirar esses meninos da rua, ensinar a eles profissões que uma cidade histórica como Salvador precisa, para restaurar e conservar seus monumentos? A oportunidade surgiu com a reforma do antigo prédio da Faculdade de Medicina da Bahia, situado no Terreiro de Jesus, no Pelourinho.
No local, onde já funcionou o primeiro Colégio dos Jesuítas do Brasil, erguido em 1590, construído em pau a pique, com cobertura de palha, existe hoje um grande canteiro de obras e sete oficinas profissionalizantes, iniciadas em 97: cantaria, carpintaria, marcenaria, estuque, ferro forjado, pedreiro e pintura. O arquiteto Luís Carlos Botas Dourado, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e coordenador do projeto, contou que a idéia de formar mão-de-obra especializada em construção civil para a recuperação de monumentos históricos surgiu em 1990, quando os professores da Faculdade de Arquitetura perceberam haver uma carência muito grande de profissionais-artesãos, necessários a várias etapas de uma obra. Na Idade Média, o arquiteto fazia o projeto e depois atuava com mestre-de-obra, executando a construção, lembrou Dourado, explicando que, com o tempo, foram surgindo carpinteiros, cantareiros e outros profissionais. Acontece que esses trabalhadores passaram a rarear ultimamente em Salvador e, quando o governo do Estado lançou o projeto de recuperação do centro histórico de Salvador, sentimos a necessidade de formar essa mão-de-obra, disse. Na recuperação de um monumento, além dos restauradores de peças históricas, o papel de um carpinteiro ou de um pedreiro também é muito importante. Mestres cantareiros, então, restam pouquíssimos. A cantaria é uma técnica de beneficiamento de pedra, muito usada nos monumentos barrocos baianos. Vários escultores deixaram arcadas e molduras de portas das igrejas de Salvador como belos exemplos dessa técnica. O marco é a fachada da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, que reproduz em pedra, uma talha barroca. Atualmente, através da cantaria, pode-se construir bancos de praça, calçamentos e pisos. O mestre mais conhecido no Estado é Everaldo Abreu, da cidade de Santa Luz, no sertão baiano. Ele mantém lá um curso de cantaria e ensina os alunos da Escola Oficina de Salvador.
A carência de artesãos fez a Faculdade de Arquitetura promover cursos de formação de mão-de-obra, mas os professores logo perceberam que o ideal seria colocar esse pessoal numa construção. A prática é melhor que qualquer simulação em laboratório, ensina Dourado. O problema é que nenhuma construtora iria aceitar aprendizes numa obra, daí a importância da restauração da Faculdade de Medicina, bancada por instituições internacionais, governos da estadual e federal. Fora a verba de R$ 5 milhões para a execução da reforma em sí do prédio, o patrocínio para o funcionamento da escola no local foi possível graças à Agência Espanhola de Cooperação Internacional.
Mostramos o nosso projeto aos espanhóis e eles concordaram na hora em nos ajudar, contanto que o trabalho beneficiasse pessoas carentes. O orçamento anual da Escola Oficina ficou em R$ 800 mil, dos quais a agência contribui com 40%. O restante é dividido entre o Ministério da Cultura, Secretaria do Trabalho do Estado, UFBA, Eletrobrás e BNDES.
Cerca de 900 adolescentes carentes de 16 a 24 anos, alguns ligados às várias instituições de menores da cidade, disputaram as 100 vagas oferecidas. Os selecionados recebem bolsa de estudo, material escolar, alimentação, vale transporte, salário mínimo e plano de saúde. O trabalho é duro: são dois turnos e à noite, eles frequentam a escola regular. A primeira turma de 50 jovens profissionais se forma em maio. Dourado está preparando uma apresentação formal do grupo ao Sindicato da Construção Civil e Instituto do Patrimônio Histórico. Queremos informar que esse contingente está à disposição, disse. Além disso, a Escola Oficina vai ensinar os alunos a formar uma cooperativa autônoma para oferecer seus serviços ao mercado de Salvador. Reconhecido por várias organizações, o projeto Escola Oficina ganhou, no ano passado, disputando com 334 concorrentes de todo o Brasil o Prêmio Paulo Freire, (voltado a experiências vitoriosas que unam educação e trabalho)
na categoria Outros Meios de Aprendizagem.


