Resistência à Aids implicaria em predisposição para a Hepatite C
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de julho de 2002
France Presse 
Paris - A resistência natural que algumas pessoas apresentam ao HIV, vírus da Aids, implicaria num risco maior de contrair outra doença crônica grave, a Hepatite C, segundo pesquisas de cientistas alemães.
O motivo deste comportamento paradoxal seria uma alteração (mutação) do gene CCR5, que controla o acesso utilizado pelo vírus da Aids para as células (linfócitos T) do sistema imunológico.
As pessoas que herdaram cópias deste gene (uma do pai e outra da mãe) são resistentes ao contágio da maioria dos tipos de HIV. A má notícia, reverso da medalha, é que esta resistência ao vírus da imunodeficiência humana (HIV) aumenta o risco de pegar Hepatite C (HVC)'', afirma a equipe dos professores Ulrich Spengler e Rainer Woitas, da Universidade de Bonn, cujos trabalhos foram publicados pela revista mensal Gastroenterology, veículo da Sociedade Americana de Gastroenterologia.
Essa dupla mutação atinge aproximadamente 1,5% dos brancos nos Estados Unidos e na Europa Ocidental e 4% dos escandinavos'', afirmar o virologista Jeffrey Laurence, da Universidade Cornell de Nova York, num editorial que acompanha a apresentação da pesquisa alemã.
A pesquisa foi realizada com um grupo de pessoas brancas, 153 delas portadores do vírus da Hepatite C, 102 do HIV, 130 dos dois vírus e 102 doadores de sangue em bom estado de saúde.
Aproximadamente 1 % da população alemã herdou cópias desse gene que protege do HIV. Em compensação, é muito alto o contágio do vírus da Hepatite C. A pesquisa contou 12 entre os 153 pacientes (7,8 %) soropositivos para o HVC e apenas 1 entre os 102 (1%) doadores de sangue''.
Essa característica genética (dupla cópia do gene) está associada a um aumento da carga virótica'' entre os pacientes que sofrem de Hepatite C crônica. A quantidade de vírus da Hepatite C no sangue é ''até quatro vezes mais alta'' que a observada entre os pacientes desprovidos desta forma de resistência ao HIV.
Para impedir que o vírus se instale e permaneça no organismo, ''uma resposta do sistema imunológico é muito importante na primeira fase da infecção pela hepatite C'', explica o professor Spengler.
E, segundo o estudo, a mutação facilitaria a instalação persistente do HVC, com risco de desenvolver uma cirrose e câncer de fígado a longo prazo. ''É possível que as interações entre o HVC e o gene CCR5 possam afetar os resultados do tratamento da Hepatite C (interferon alfa e ribavirina)'', afirma o professor Laurence.
No mundo, mais de 170 milhões de pessoas sofrem de infecção crônica do HVC e a cada ano são registradas entre 3 e 4 milhões de novas infecções.


