Rio - Subiu para 131 o número de mortos em consequência das chuvas que atingem o Estado do Rio desde o fim da tarde de segunda-feira, segundo balanço divulgado no fim da tarde de ontem pelo Corpo de Bombeiros. Ainda há desaparecidos e histórias que emocionam como a vivida pelo sargento bombeiro Luiz Carlos dos Anjos, 43 anos, que mal dormiu na madrugada de ontem. Acordou às 5h para voltar ao Morro dos Prazeres, no centro do Rio, e retomar o trabalho que a volta da chuva forte e outros deslizamentos na encosta o obrigaram a interromper na noite anterior. O bombeiro queria voltar para o que havia restado da Rua Gomes Lopes. Ele tinha que continuar cavando no local de onde o menino Marcus Vinicius Vieira da França da Matta, 8, gritava pedindo por ajuda, desde a manhã de anteontem, quando foi soterrado por uma avalanche que destruiu mais de 10 casas da comunidade. O sargento dos Anjos cumpriu sua missão. Encontrou a criança por volta das 10h, mas ela já não respirava.
O bombeiro retirou o corpo do meio dos destroços e o envolveu numa manta. A poucos metros dali, o pai do menino, aguardava o fim da operação. No dia anterior, ele acompanhou os trabalhos de resgate desde que os primeiros gritos abafados de seu filho foram localizados debaixo da terra. Ao perceber que os bombeiros traziam um corpo sem vida, o pai, Valmir de França se desesperou. Foi amparado pelos mesmos homens que tentaram salvar Marcus Vinicius durante horas. Todos choraram muito.
Proibido de dar entrevistas pelo comando da corporação, o sargento dos Anjos contou para os colegas detalhes de sua atuação e voltou a se emocionar. ''Criança sensibiliza mais. A gente cria um laço afetivo com os pais, luta com mais afinco para conseguir salvar. Mas a dor que a gente sente toda vez que localiza alguém já sem vida é grande demais'', disse.
O sargento dos Anjos entrou de folga a partir das 8 horas de quarta-feira. Mas a escala de descanso foi para o espaço. O bombeiro disse que não teria como descansar em casa enquanto não terminasse de ajudar no resgate de Marcus Vinicius. Lotado no quartel de Santa Teresa, ele disse que tentaria voltar ao Morro dos Prazeres ontem para continuar na operação.
Marcus Vinicius havia sobrevivido ao primeiro grande deslizamento de terra que aconteceu na manhã de anteontem. Ele estava na casa de uma tia porque não tinha conseguido chegar ao colégio. Sua casa no Morro dos Prazeres estava em risco, depois que um muro quebrou e se escorou sobre as telhas. Mas o menino havia resistido. Ao longo da terça-feira, o menino gritava ''me tira daqui, por favor'', ''vem logo, vem rápido''. Os bombeiros tentavam se comunicar com ele o tempo todo. No meio da tarde, Marcus Vinícius parou de falar.
O pai e os parentes do garoto ficaram apreensivos. De repente, um novo grito de Marcus Vinicius precipitou uma comemoração que parecia com a de uma torcida de futebol. ''Ele está vivo'', gritou o pai. ''Ele não pode morrer. É um menino de ouro'', disse o tio Celso Vieira da Silva, 41. Logo depois, no entanto, a chuva voltou forte.
Enquanto os bombeiros que atuavam em outras áreas do desabamento interromperam o trabalho, o sargento dos Anjos e seus colegas não pararam. Uma nova avalanche veio no início da noite. Quase pegou os bombeiros, que se viram forçados a parar. Neste momento, Marcus Vinícius já não poderia ser salvo.

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