Reservatório da Represa Capivara atinge nível mais baixo da história

Estiagem que castiga o Paraná desde setembro impacta turismo e pesca em Primeiro de Maio

Vitor Struck - Grupo Folha
Vitor Struck - Grupo Folha

A estiagem que vem castigando o Paraná e preocupando agricultores desde meados de setembro deste ano fez com que o nível do reservatório da Represa Capivara, em Primeiro de Maio (Região Metropolitana de Londrina), chegasse ao mais baixo da história, menos de 11%, estimam moradores e agentes públicos ouvidos pela FOLHA nesta semana. Tradicional destino no Norte do Estado para turistas em busca de lazer e da pesca esportiva, o local agora é alvo de preocupação já que a escassez hídrica traz dificuldades para a navegação e impacta diretamente na sobrevivência de peixes de espécies nativas. As duas atividades já estavam desaquecidas por conta da pandemia da Covid-19.   

Reservatório da Represa Capivara atinge nível mais baixo da história
 


A Prefeitura de Primeiro de Maio mantém proibido o acesso ao tradicional parque banhado pela represa, o Paranatur, desde março, como medida de contenção da pandemia. No entanto, ao lado do secretário municipal do Meio Ambiente, Nivaldo Ribeiro, foi possível constatar a diferença.



Reservatório da Represa Capivara atinge nível mais baixo da história
 


Atualmente, a caminhada em direção às águas ganhou cerca de 100 metros a mais devido à queda no nível do reservatório. Na área agora descoberta, revela-se um "tapete" de mexilhões dourados sob as pedras, molusco que se tornou uma praga em rios e reservatórios de água doce de todo o Sul do País. Ao lançar os olhos mais adiante, as galhadas que emergem das águas, além de novos blocos de terra, passam a chamar a atenção. Nem mesmo a chuva que veio há poucos dias e elevou o acumulado do mês de novembro para 70 milímetros na região fez surtir efeitos no ano marcado pelas crises sanitária e hídrica. 

Reservatório da Represa Capivara atinge nível mais baixo da história
 


Por enquanto, ainda não faltou água para o consumo dos moradores do município de Primeiro de Maio, o que talvez explique a frequência com que se vê as calçadas sendo lavadas mesmo no dia seguinte às pancadas de chuva. Mesmo com o bom trabalho desempenhado pela Sanepar, avaliou o secretário, a Prefeitura vem pedindo aos moradores e empresas, como lava-rápidos, que economizem água limpa. 


Com relação à pesca esportiva, mesmo antes da piracema, a frequência de turistas já estava diminuindo, avaliou. "Reduziu a pescaria tanto dos peixes de maior porte, como o Surubim, o Pintado e o Dourado, até mesmo o Jaú que é espécie nativa da nossa região. Elas se ausentam devido ao nível da água estar muito baixo e o pescador profissional, normalmente, não se interessa muito em pescar a Tilápia, o Tucunaré, a Corvina, que são espécies exóticas e não sentem muito", explicou o secretário.         


Com sinais de abandono e tomada pela nostalgia, o Paranatur divide a costa com a entrada social do condomínio de lotes residenciais Ilha do Sol, refúgio de turistas do Norte do Paraná e de São Paulo. Por conta da nova realidade, o deck de acesso aos barcos e lanchas precisou ser adaptado e as plataformas, retiradas de sua posição original. 


A reportagem também tentou entrar em contato com a CTG (China Three Gorges Corporation) Brasil, maior produtora de energia do mundo e que arrematou a Duke Energy em 2016. No entanto, foi informada de que em razão do Dia da Consciência Negra, feriado no estado de São Paulo, a Duke não poderia atender à solicitação. Concessionária de oito das 11 usinas hidrelétricas localizadas no Rio Paranapanema, o trabalho da companhia deverá perdurar até 2029, quando da vigência dos atuais contratos. O controle da vazão é baseado em estudos desenvolvidos pela empresa e pelo ONS (Operador Nacional do Sistema), em Brasília. 


ECONOMIA REGIONAL EM APUROS 


Em Primeiro de Maio, as consequências para a economia trazidas pela estiagem vão além da queda da produtividade da soja, esperada para este ano em até 6% em algumas regiões do estado. Na região, "entre 5% e 10% dos produtores que arriscaram plantar, não viram o grão germinar", avaliou o secretário do Meio Ambiente. Porém, nos mercados, farmácias e postos de combustíveis da pequena cidade de 11 mil habitantes, as consequências podem vir mais rápido.


No pesqueiro da família do empresário Maicon Melchor, 30, a cena também é de entristecer a qualquer amante da pescaria e da natureza. Ao mostrar fotos não tão antigas que tirou dos céus com a ajuda de um drone, Melchor conta que, embora o nível venha baixando há cerca de dois anos, nunca se viu pontos que já registraram 13 metros de profundidade secarem dessa forma. De acordo com ele, a queda nos níveis poderá prejudicar, também, a reprodução durante a Piracema e trazer consequências econômicas, o que já vem sendo percebido no caso de espécies nativas como o Piau, o Piauçu e o Lambari.   


"Com essa baixa, eles perdem totalmente os ninhos, a reprodução. O Tucunaré mesmo aqui da represa, que a gente trabalha na pesca esportiva, faz o ninho dele em baixa de toco, na beira do capim. Com dois dias ele solta a desova e já está seco, então essa época a desova deles foi tudo perdida", lamentou.    




Enquanto nos últimos 12 meses choveu cerca 650 milímetros e a previsão é para que o fenômeno climático La Niña permaneça dificultando precipitações constantes até meados de abril de 2021, a esperança está nas pancadas isoladas. "Precisaríamos de, no mínimo, uns 400 milímetros pra melhorar um pouco", almeja o empresário. 

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