Brasília, 12 (AE) - O Banco Central terá que ter muita cautela para reduzir as taxas de juros neste ano. A avaliação é do representante do Fundo Monetário Internacional (FMI) no Brasil, Lorenzo Pérez. Na opinião do executivo do fundo, o espaço para o Banco Central reduzir os juros abaixo de 19% é ainda limitado. "O BC vai ter que atuar com cuidado", disse Pérez. "A equipe econômica precisa estar atenta em continuar implementando o programa fiscal e o BC tem que estar atento de tomar as decisões sobre a taxa de juros olhando sempre as pressões inflacionárias", avaliou.
Mesmo assim, o representante do fundo acredita que os juros devem cair à medida que houver uma sinalização clara da queda dos índices de inflação. "Se o BC tem como a pauta principal da sua política reduzir a inflação, é a inflação que vai sinalizar", ressaltou ele.
Outro fator sinalizador para a redução dos juros, segundo Pérez, será a implementação das metas de política fiscal traçadas para este ano. "O governo tem que assegurar que seja executada a política fiscal que está anunciada para o ano 2000, porque existe sempre o risco", disse Péres.
O representante do FMI previu também uma maior estabilidade no mercado de câmbio este ano do que o registrado em 1999. "O câmbio ficará muito mais estável, no nível que está agora, o que vai ajudar", avaliou.
Segundo ele, a menor volatilidade do câmbio vai contribuir para a queda dos índices de inflação. "Não se espera uma desvalorização grande este ano à medida que se implemente as políticas corretas", observou Pérez. Na sua avaliação, esse cenário mais favorável no câmbio será possível graças à perspectiva de fortalecimento do setor externo neste ano.
Os primeiros sinais de melhora da balança comercial já podem ser observados. "Já, já vamos começar a ver um fortalecimento maior da balança comercial", disse Pérez. "À medida que o mercado veja esta melhora vai haver mais fluxo de capital para o Brasil", disse o representante do FMI, prevendo com isso um aumento das reservas internacionais brasileiras.
Inflação - Lorenzo Pérez está confiante que o Brasil conseguirá cumprir a meta de 6% de inflação para este ano, se as políticas anunciadas forem implementadas. "É possível que seja um pouco mais de 6%, mas ficará dentro da margem", avaliou. Pérez ressaltou que é preciso observar a redução dos índices de inflação dentro do cenário de retomada da atividade econômica. "É importante colocar as coisas em perspectiva. Será uma queda dentro de uma reativação econômica, o que é mais díficil."
As metas trimestrais que serão mais difíceis de serem cumpridas são as do segundo e terceiro trimestres, na avaliação de Pérez. Em parte, por um efeito estatístico, já que a inflação daqueles dois períodos no ano passado, sobretudo no segundo trimestre, foi bem mais baixa. O representante do FMI no Brasil, no entanto, não vê problema da meta trimestral ficar um pouco acima do previsto, porque a meta do ano, na sua avaliação, será cumprida. Pérez informou ainda que o assunto será discutido com a próxima missão do fundo, que chegará ao Brasil em março.
O resultado da mudança da política cambial realizada no início do ano passado no País foi muito positiva, disse Pérez. "Os resultados foram muito melhores do que a maioria esperava"
ressaltou. Apesar destes resultados positivos, Pérez lembrou que a desvalorização do real acabou sendo efetivamente praticada pelo mercado. "Muita gente fala que o Brasil mudou e não tinha que ser mudado, mas realmente se pode dizer que de certa forma foi o mercado que desvalorizou a moeda e não as autoridades", avaliou. Para Pérez, num dado momento foi necessário "aceitar os acontecimentos" que levaram à desvalorização. "Os acontecimentos foram se sucedendo e ao final ficou claro que a melhor, e talvez a única política, era deixar flutuar a moeda", disse.
O aumento das taxas de juros que se seguiu à mudança da política cambial no País em janeiro do ano passado foi defendido pelo gerente-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Michael Camdessus. "Uma pessoa que lutou muito para essa política (de aumento das taxas de juros) era o gerente-geral (do fundo) Michael Camdessus", lembrou o representante do FMI no Brasil, Lorenzo Pérez. "Foi uma mudança de crise, uma coisa necessária", ressaltou.
Mesmo sabendo que esse tipo de medida gera uma série de discussões no mundo econômico, Pérez lembrou que os países asiáticos, como Coréia e Tailândia, que optaram pelo aumento de suas taxas internas de juros para defender suas moedas depois das desvalorizações na época da crise asiática, acabaram por ter uma recuperação econômica num curto espaço de tempo. "Aqueles países que subiram suas taxas de juros para defender a moeda se recuperaram muito mais rápido", avaliou.
Credibilidade - Para o executivo do fundo, a recessão econômica vivida pela economia brasileira foi conjuntural e o movimento de recuperação econômica já em 99 foi uma "surpresa agradável". Segundo ele, o governo brasileiro inicia este ano com uma importante posição de credibilidade junto ao mercado financeiro, em consequência da execução das metas fiscais definidas para o ano passado e a perspectiva de cumprimento das previstas para 2000. "O mercado já espera o cumprimento das metas, essa é a coisa nova no Brasil", disse.
Pérez elogiou o que classificou de "grande esforço" da equipe econômica do governo em cumprir as metas traçadas junto ao fundo. "Em qualquer país do mundo, quando se fala em um ajuste fiscal de 3,1% estamos falando realmente de um ajuste fiscal espetacular", avaliou. "Se você leva em conta que a economia estava em recessão e se formos ajustar esse número levando em conta a desaceleração econômica esse ajuste fiscal ainda é maior", complementou.
Na avaliação do representante do Fundo, a Receita Federal contribuiu positivamente para que o governo cumprisse as metas fiscais traçadas para o ano passado. "O ajuste fiscal foi feito, por um lado, com medidas de receitas e aumento das alíquotas, mas também com um grande esforço por parte da Receita Federal de recolher uma série de tributos que estavam atrasados", lembrou. Os Estados e municípios também contribuíram para o ajuste, na opinião do representante do FMI no Brasil.
"Eles passaram de uma situação de díficit de 0,2% em 1998 para um superávit ao redor de 0,3% em 1999. Realmente o ajuste fiscal foi muito forte, foi muito amplo e isso é parte daquilo que dá credibilidade ao País", afirmou. A reação do governo diante da derrota no Supremo Tribunal Federal (STF) com relação à cobrança previdenciária dos inativos também foi elogiada por Pérez, "O governo reagiu imediatamente e buscou alternativas. Isso também dá muita credibilidade", enfatizou.