As grandes represas financiadas pelo Banco
Interamericano de Desenvolvimento na América Latina (BID) têm, em média, custos superiores (45%) em relação aos orçamentos originais, segundo assinala um relatório mundial que será apresentado hoje em Santiago. O documento da Comissão Mundial de Represas (CRM), um organismo independente e pluralista criado há dois anos, assinala que as grandes represas, apesar de contribuírem de maneira importante para o desenvolvimento humano, têm ‘‘custos sociais e ambientais inaceitáveis e, com frequência, desnecessários’’.
O relatório ‘‘Represas e desenvolvimento: um novo quadro para a tomada de decisões’’ foi divulgado em Londres, há duas semanas, pelo presidente da comissão, Kader Asmal, atual ministro de Educação da África do Sul e ex-titular do ministério de Meio Ambiente e Reflorestamento no governo de Nelson Mandela. Foram programadas apresentações do relatório em outras 14 cidades do mundo, incluindo três da América do Sul: Buenos Aires (23), Santiago (24) e São Paulo (27).
Em todo o mundo, foram construídas,
45 mil grandes represas, seja para centrais hidrelétricas, seja para controlar inundações, seja para fins turísticos (lagos artificiais). O relatório assinala que, ‘‘na América do Sul, as represas são uma pedra angular no trabalho da CRM’’, referindo-se às polêmicas que surgiram envolvendo a construção de grandes represas nos últimos anos, financiadas, em sua maioria, pelo BID e pelo Banco Mundial, entidades que propiciaram a criação desse organismo especializado. A América do Sul tem mais de mil represas, considerando como tais aquelas cujos paredões de represamento alcançam mais de 15 metros. O Brasil tem 394, a Argentina, 101, e o Chile, 88.
O documento inclui um detalhado estudo do complexo de Tucuruí, no Brasil, que atinge 70% das necessidades de energia do Norte do país e que duplicará a sua capacidade na segunda fase do projeto, cujo término está previsto para 2006 e que custará US$ 10 bilhões. Esse é, talvez, o projeto mais polêmico do território latino-americano, nos últimos anos cenário de controvérsias em torno de outras represas para hidrelétricas. Entre os mais questionados, além de Tucuruí, estão o de Yaceretá, na fronteira da Argentina com o Paraguai, o de Urrá, na Colômbia, o de El Cuchillo, no México, o de Bayano, no Panamá, e o de Pangue, no Chile.
Estima-se que, em todo o mundo, o negócio das represas envolve US$ 50 bilhões ao ano. Segundo o relatório, nos anos 70, o BID forneceu créditos de mais de US$ 1 bilhão para projetos de represas na América do Sul. Nas décadas seguintes, tanto o Banco Mundial quanto o BID reduziram bastante o aporte de financiamento para esse fim, mas, em troca, aumentou a participação de bancos privados internacionais.
‘‘É muito importante que o relatório da CMR condene o deslocamento forçado de populações em função de represas. Isso não deve ocorrer novamente’’, disse à IPS o ecologista Juan Pablo Orrego, presidente do Grupo de Ação pelo Biobio (Gabb). Essa entidade, uma rede de grupos ambientalistas, sindicais, indígenas e organizações sociais, mantém uma permanente campanha contra a construção da represa Ralco, em terras pehuenches, a qual põe em risco, além da retirada forçada de 80 mil famílias, o ecossistema cordilheiro, considerado único no mundo.

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