Paris, 31 (AE) - É uma banalidade, quase um clichê, apresentar Boris Yeltsin como um personagem imprevisível. Ébrio e extenuado
sempre morto e ressuscitado, mudando de primeiro-ministro por capricho, tomando decisões ao acaso e instintivamente, incoerente e confuso. Em poucas palavras, um "mujik" (camponês) inchado de vodca. Mas, o que acaba de acontecer em Moscou desmente este retrato.
A renúncia de Yeltsin e a escolha de Vladimir Putin como seu candidato preferido para as eleições de 26 de março (sem dúvida) evoca uma imagem contrária, quando colocada dentro da sequência das iniciativas tomadas há alguns meses. Ela sugere um grande jogador de xadrez, um calculista perigoso, astuto e frio.
Recordemos: em agosto, Yeltsin afastou um primeiro-ministro "mole", Stepashin, e nomeou um primeiro-ministro "duro", Putin.
Simultaneamente, reacendeu-se no norte do Cáucaso uma nova guerra da Chechênia. Na realidade, as duas iniciativas (Putin e Chechênia) constituem apenas uma.
Qual era o objetivo de Yeltsin? Fazer fracassar a aliança triunfante de Primakov/Luzhkov - esses dois homens que causavam um verdadeiro pânico à "família" (isto é, a verdadeira família de Yeltsin e seus assessores, inclusive os oligarcas), todas essas pessoas que mergulharam nos cofres do Estado, desviaram bilhões de dólares e se apoderaram das alavancas do comando frequentemente com a cumplicidade da "máfia".
Portanto, enquanto pairava no ar o perigo Primakov/Luzhkov, o velho Yeltsin, por mais deteriorado que estivesse, deveria ficar no poder se não quisesse que depois de seu afastamento, a "família" fosse varrida e lançada ao rio (na Rússia, como na URSS, as sucessões dos "czares" são sinistras e sangrentas). Foi então imaginada a solução: Desvencilhar-se do fraco Stepashin e nomear um verdadeiro linha dura, Vladimir Putin, um homem insensível, um profissional, um homem da "KGB", especialista, competente, hábil e brutal.
É aqui que a Chechênia tem sua utilidade. Para que Putin subisse ao céu, era preciso encontrar um tranpolim. E foi a Chechênia (país detestado pelos russos, desde Solzhenitsyn até os comunistas). E isso funcionou: o povo russo, encantado, descobriu que, depois de tantos anos de vergonha, de amputações, de covardia, de mendicidade, Putin e seus generais podiam devolver-lhe seu orgulho nacional.
A partir de então as outras etapas do plano foram colocadas em órbita. As eleições legislativas (19 de dezembro) confirmaram o cenário. Putin, os seus e a "família" faziam jogo igual com os comunistas. Primakov foi derrotado. Yeltsin podia então iniciar a última fase: sua demissão voluntária e as eleições de março deveriam elevar Putin ao trono.
A "família" seria então salva, a menos que haja uma pane ou que Putin seja derrotado em março, ou que Putin, após eleito, esqueça a "família".
O que se sabe sobre Putin é muito pouco para continuar a especular. Sobre seu programa há apenas silêncio. Sua única ocupação foi fazer a guerra. Ele a dirigiu com grande rudeza, mas eficazmente. Ignoramos o resto: existe alguma outra ideologia, além do patriotismo e do nacionalismo? Ele não diz nada sobre isso, mas sabemos que a ideologia não é o forte dos homens da KGB (Beria, etc). Os homens da KGB são "profissionais", ases, cães de caça. Lançados sobre uma presa, eles a mordem.
Uma frase pronunciada há algumas semanas por Putin jusntamente a propósito da Chechênia diz muito sobre o pergonagem e suas "delicadezas". "Estou pronto a atacar os terroristas (os chechenos) onde quer que estiverem escondidos."
Este homem inteligente, rápido e competente, poderá ganhar as eleições? Nada de profecias. Apenas duas observações: por uma parte, sua designação por parte de um Yeltsin, ontem desprezado, mas hoje aureolado pela Chechênia, é um grande trunfo para Putin. Por outra parte, a Rússia, depois de anos de furacões, conhece uma calmaria. A queda da produção industrial está estabilizada. A desvalorização de 1998 foi bem sucedida. Não deixou a inflação pegar fogo. Esta continua forte, mas prevê-se uma inflação de um só dígito a partir de 2001.
E a Rússia tem uma chance. O preço das matérias-primas está aumentando, sobretudo o do petróleo. Até mesmo a expectativa de vida, em queda durante dez anos, cessou de cair desde 1998. Certamente a Rússia continua frágil, cheia de vírus e micróbios. Mas ela reencontra sua vitalidade. Yeltsin quis aproveitar-se deste bom momento "climático" para lançar rapidamente o míssil Putin.
O sucesso de Putin não é certo. Existem ainda muitos perigos. Por exemplo: se neste momento a guerra da Chechênia está levantando Putin ao auge, será que este efeito durará até março? Com toda a certeza, Grozny irá cair, mas depois de quanta carnificina? Além disso, os combatentes chechenos, recolhidos nas montanhas, poderão causar estragos às tropas russas. E, então, se os soldados russos começarem a morrer?
Suponhamos que Putin prevalece e se assenta sobre a poltrona de Yeltsin. O Ocidente deverá congratular-se com isso? Uma vez mais, será preciso prudência.
Apenas uma coisa é certa: a Rússia mudou há dez anos. Este país fantasmagórico e vacilante, sempre escorregando à beira do abismo e que apenas sonhava imitar grosseiramente o Ocidente e a agachar-se sob as asas da América, da Europa e da Otan - este país viveu.
Farta de tanta vergonha e de tanta desordem, devastada pela melancolia histórica, a Rússia aspira apenas ao brio e à ordem. Putin parece um homem talhado para a ordem. Quanto ao brio, ao orgulho, Putin jogou esta carta na Chechênia e o Exército russo brilha.
Uma ou duas vezes, Putin falou de outra coisa, fora da Chechênia. E seria prudente que o Ocidente decifrasse suas frases incisivas. "Jamais concordaremos em nos transformar numa potência de segunda categoria", declarou ele. E, mais recentemente, Putin levantou uma outra ponta do véu. "A Rússia se unirá em torno de três valores: o patriotismo, o poder do Estado e a religião".
Confrontando e analisando estes sinais, pressentimos que a Rússia tentará tomar distância do Ocidente, apesar de sua enorme dívida externa. Ela aumentou os orçamentos militares. Dedica um cuidado apaixonado - como no tempo dos comunistas - ao complexo militar-industrial. Prepara a volta do Estado nos setores estratégicos e nevrálgicos. Reaproxima-se a passos largos de uma China que está cada vez mais desconfiada em relação ao Ocidente. Isso não significa absolutamente uma volta à Guerra Fria. Mas anuncia uma Rússia menos dócil do que o era há dois anos.

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