Paris, 16 (AE) - O presidente Jacques Chirac, que ficou tão feliz, tão petulante desde que a operação Kosovo lhe deu a oportunidade de envergar os galões dourados de "chef de guerre", de comandante militar, recebeu hoje (16) pela manhã um vil torpedo: seu "braço direito", ou seja Phiilippe Séguin, presidente do RPR, (o partido gaullista e chiraquiano) e candidato da direita guallista às eleições européias, inesperadamente pediu demissão. Estupefação e pânico entre os "chiraquianos".
O motivo é porque Philippe Séguin era o homem-chave do campo de Jacques Chirac. Não somente por causa de sua posição oficial, mas também por causa de seu talento e de sua força. Este homem avantajado e tonitruante, de caràter grosseiro, capaz de arremessar sua mesa contra a cabeça de alguém que se atreva a contradizê-lo, é também o melhor orador político francês. Sua voz é forte e ecoa bem longe. E isso foi o que lhe valeu, apesar de seu gênio sempre amargo, a posição de "segundo homem" do chefe de Estado.
Mas agora este "segundo homem" abandona o comboio. Consequentemente, a direita, ou seja, o campo de Chirac, que já sofria de neurastenia e de astenia avançadas, vai se desfazer um pouco mais. Chirac se encontra mais sozinho do que nunca. Naturalmente, Séguin será substituído por outro líder. Mas ninguém possui a estatura excepcional de Séguin.
Qual o motivo desta partida inesperada? - O caráter de Séguin, sombrio, desconfiado, magoado. E as indecisões congênitas de Chirac, que sempre quis administrar a outra "família" da direita francesa - a "direita liberal não-gaullista". A preocupação de Chirac é a de ganhar mais espaço, congregar todas as energias da direita. Por sua vez, Séguin, gaullista radical, se recusava a mergulhar a identidade gaullista nos horizontes frouxos e flexíveis da "direita".
Mas existe algo mais preocupante: tudo leva a crer que a demissão de Séguin se explica também por motivos de política externa: gaullista radical, ele não deve absolutamente estar gostando que a França. (sob o impulso de Chirac) tenha se submetido, de mãos e pés atados, à vontade americana, ao Pentágono,à Madeleine Albright e à OTAN na questão de Kosovo.
No partido gaullista do RPR, Philippe Séguin não é o único a deplorar o fervor com que a França aderiu à cruzada de ataques aéreos (embora estas pessoas não apreciem Milosevic, considerado um líder ignóbil, não aprovam entretanto a tática cega da OTAN e a mediocridade dos resultados).
A questão é portanto dupla: por uma parte, será que o afastamento de Seguin irá dificultar um pouco mais o caminho de Chirac rumo às próximas eleições presidenciais de 2002? E a outra questão é ainda mais grave: será que o partido, cujos gaullistas, em sua maioria, ainda apóiam a OTAN, irá sofrer os contra-golpes da cólera de Séguin?

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