São Paulo, 13 (AE) - Pelo menos 80% do desemprego brasileiro pode ser explicado por duas décadas de estagnação da renda per capita (em 1980 a renda anual era de US$ 3,0 mil e este ano é de US$ 3,1 mil ) e pelo modelo de desenvolvimento dos anos 90, desfavorável para o emprego, segundo o economista da Unicamp, Márcio Pochmann.
"O Brasil modernizou-se, integrou-se ao mercado mundial
mas isso significou a redução de 1,2 milhão de empregos na indústria nos anos 90, por causa da entrada de importados, e vai significar o fechamento de outros 700 mil postos públicos de trabalho, em razão da reforma administrativa e da Lei Camata", disse Pochmann. Nessa conta, não estão computados fechamento de postos de trabalho em estatais privatizadas.
Segundo ele, com o atual modelo econômico adotado pelo governo, o Produto Interno Bruto brasileiro não poderá crescer além de cerca de 5% nos próximos anos, na melhor das hipóteses. Assim, o Brasil não deverá ter capacidade de criar postos de trabalho para dar conta do número atual de desempregados e das futuras pressões demográficas - a população economicamente ativa vem tendo taxa de expansão de 2,2% ao ano e esse ritmo de crescimento deve se manter, com pequenas alterações, até 2010.
Com isso, Pochmann sugere que o Brasil comece a combater o desemprego facilitando a saída de pessoas do mercado de trabalho. Existem 2,8 milhões de crianças com menos de 14 anos no mercado, por exemplo, que poderiam deixar essas ocupações para adultos, se existissem programas de acompanhamento e incentivo às famílias necessitadas.
Outro problema é o dos 5,3 milhões de aposentados e pensionistas que se mantêm ativos por causa, em geral, dos baixos rendimentos oferecidos pela Previdência. Por fim, 3,4 milhões de ocupados têm duplo emprego, também para compensar baixos rendimentos.
Pochmann sugere ainda que o governo se convença de que o desemprego no Brasil tornou-se uma "epidemia", e de longa duração. "Vamos conviver com essas taxas de desemprego, ou taxas ainda piores, por muito tempo", disse.
Isso posto, para o economista, é tempo de realizar uma programa para desempregados desassistidos - os informais, que somam hoje no País 3,2 milhões de pessoas sem direito ao seguro-desemprego.
Segundo ele, um programa que garantisse um salário mínimo a esses desempregados informais, durante seis meses, custaria R$ 2,6 bilhões. Parece muito, lembra Pochmann, mas se a taxa de juros caísse só um pouco - por exemplo, de 19% para 18 5% -, o País economizaria esses mesmo R$ 2,6 bilhões com pagamento de serviços da sua dívida pública. "Com isso eu quero dizer que sempre é possível encontrar recursos, se o assunto é tratado como prioridade."

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