Renda divide sonhos no ensino médio
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de abril de 2003
Agência Estado 
Brasília - Pesquisa da Organização das Nações Unidas para a Ciência, Educação e Cultura (Unesco) em 13 capitais brasileiras mostra que a diferença social também ''marca e divide'' os sonhos dos alunos do ensino médio. Enquanto alunos da escola privada estão preocupados com o vestibular, os da pública se ocupam em arrumar emprego ao terminar o ensino médio.
A carência de bagagem cultural começa em casa. Mães com nível superior representam apenas 10% do total nas escolas públicas. Já nas privadas, o porcentual é de 45%.
Na maioria dos casos, os alunos das públicas estão em desvantagem em termos de acesso digital, laboratórios e atividades extracurriculares. Em São Paulo, por exemplo, 76% dos alunos das escolas públicas não usam computador em sala de aula, porcentual que cai para 14% nas privadas. A diferença aumenta ao se comparar os alunos que não têm computador em casa e estudam na rede pública (62%) e os da particular (18%). Essas diferenças podem ser maiores entre as capitais.
Os resultados deste levantamento estão no livro ''Ensino Médio: múltiplas vozes'', coordenado pelas pesquisadoras da Unesco Miriam Abramovay e Mary Garcia Castro. O livro, lançado ontem no Ministério da Educação, é um retrato do ensino médio a partir de entrevistas feitas com mais de sete mil professores e 50.740 alunos de 673 escolas públicas e privadas, em 2001.
Pela pesquisa, 66% dos alunos das escolas públicas não têm aulas de ciências em laboratórios, mas o porcentual varia por capitais entre 92% (Macapá) a 42% (São Paulo). Nas privadas, o porcentual médio é de 32%, com uma variação entre 86% (Rio Branco) a 9% (Curitiba).
A falta de familiaridade com computador atinge também mais professores da rede pública do que os das particulares, quando ambos deveriam usá-lo como instrumento de trabalho: 31% dos professores das públicas não têm computador em casa contra 15% das privadas.
As pesquisadoras constataram que os alunos tendem a se culpar pelo fracasso na escola. Para Miriam, este comportamento mostra falta de auto-estima. Os professores atribuem ao ''desinteresse'' do aluno os maus resultados. Em São Paulo, os professores disseram que 71% dos problemas da escola são os alunos desinteressados. A maioria dos alunos (57%) concorda.
Para os professores a repetência está ligada a causas externas à escola, como família e condições sócio-econômicas. ''Direciona-se somente para os alunos uma análise que poderia estar orientada para o sistema escolar'', observa Miriam, que na análise considera também problemas institucional e estrutural.
A má qualidade do ensino e o desinteresse faz com que metade dos alunos já tenha sido reprovada pelo menos uma vez nas escolas públicas, enquanto nas privadas o porcentual é de 25%. A reprovação, em que o aluno ainda tem chance de recuperação é maior entre os estudantes do período noturno (65%) do que no diurno (40%). A distância também é grande entre os que repetiram de ano, ou seja, ficaram retidos na mesma série que cursavam: 43% nas públicas e 19% nas privadas.


