São Paulo, 08 (AE) - O Departamento de Materiais (Demat) é um reduto intocável dentro da Secretaria da Administração e precisa ser investigado a fundo para que a população tome conhecimento de suas mazelas. Essas afirmações foram feitas hoje à reportagem pelo próprio secretário municipal da Administração, Renato Tuma, ao anunciar sua saída irrevogável do governo do prefeito Celso Pitta (PTN). Apesar de alegar oficialmente motivos políticos para deixar o cargo - seu irmão, o delegado Romeu Tuma, deverá concorrer ao Palácio das Indústrias no ano que vem -, Tuma atacou com veemência o Demat, órgão dirigido há seis anos pelo advogado Marcelo Pereira Daura.
"É um departamento autônomo dentro da secretaria, dirigido por um rapaz indicado pela família Maluf, que mexe em coisas que nem passam pelas mãos do secretário", afirmou. A Assessoria de Imprensa do ex-prefeito Paulo Maluf nega a indicação. Daura também, mas confirma que trabalhou por 15 anos na empresa Eucatex, da família Maluf. Irregularidades ocorridas em secretarias e autarquias municipais a partir de uma licitação promovida pelo Demat foram tema de uma série de reportagens publicada pelo jornal "O Estado de S.Paulo" nesta semana.
A principal irregularidade constatada foi a realização em unidades do Município de grandes reformas e construções sem a abertura de licitações específicas. Disfarçadas como se fossem pequenos "reparos", as obras são realizadas tendo como base as tabelas de preço da Prefeitura, beneficiando, assim, um grupo de empresas. O caso está sendo investigado pelo Ministério Público. Hoje, o Tribunal de Contas do Município (TCM), que já anunciara a investigação rigorosa em quatro secretarias, também determinou a realização de "devassa" no Demat. "Eles vão vasculhar tudo e estão muito certos", disse Tuma. "Mazelas" - Tuma elogiou as reportagens sobre a indústria das reformas. "As reportagens sobre as reformas foram excelentes, precisas, e alertaram as pessoas e o poder público para o que está por trás de tudo". O secretário não quis entrar em detalhes, mas garantiu que "pode ter muitas mazelas". O desconforto de Tuma diante do poder e da atuação de Daura haviam ficado explícitos há uma semana, quando o diretor do Demat concedeu entrevista ao "Estado". Chamados ao gabinete de Tuma após a entrevista, os repórteres foram avisados de que, se houvesse irregularidade, não seria culpa do secretário. "Ele (Daura) está aqui há muito tempo e eu só consegui afastá-lo da chefia de gabinete, que ele acumulava; afinal eu precisava ter alguém de confiança ao meu lado", contou Tuma. O secretário deixou claro que uma de suas preocupações era a de não ser envolvido, caso surgisse um escândalo envolvendo o Demat.
A demissão de Tuma foi comunicada a Pitta na quinta-feira à tarde. "Senti que o prefeito poderia querer meu cargo e me antecipei", disse. "A conjuntura me favoreceu para sair". Tuma afirmou que seu lugar deverá ser preenchido por indicação do deputado federal Dorival de Abreu, presidente nacional do Partido Trabalhista Nacional (PTN), ao qual Pitta filiou-se em setembro. O escolhido provavelmente será o filho de Dorival, Marco Aurélio.
A exoneração de Tuma deve ser publicada na quarta-feira, e ele deixa o cargo na quinta. Funcionário da Câmara há 46 anos, deve voltar a ocupar a função de secretário-geral. A reportagem não conseguiu localizar Daura hoje. Em entrevista na semana passada, ele garantiu que não havia problema no edital das atas de registro de preços. "Se há irregularidades elas ocorrem nas unidades".

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