Brasília, 15 (AE) - O ministro da Justiça, Renan Calheiros, antecipou-se ao presidente Fernando Henrique Cardoso - que formalizará sua demissão na reforma ministerial - e anunciou no início da tarde sua saída do governo. Emocionado, Renan descartou a possibilidade de assumir a liderança do governo no Senado, compensação oferecida pelo presidente, e insinuou que poderá engrossar os setores de oposição ao governo dentro do PMDB.
O ministro recusou a liderança do governo para não trabalhar com algumas das pessoas que, na sua opinião, contribuíram para a sua demissão, especialmente o ministro das Comunicações e articulador político do governo, Pimenta da Veiga. Renan disse entender "o gesto, a lembrança e o reconhecimento" de Fernando Henrique ao convidá-lo, mas frisou que não estava analisando esta possibilidade.
Na despedida, Renan defendeu sua gestão alegando ter deixado "alguns conceitos" de defesa do consumidor e do cidadão. "Qualquer ministro que ocupar o cargo vai necessariamente ter que dar continuidade a este trabalho", disse, "senão pode pagar um preço maior, que é virar ministro da injustiça."
O senador alagoano tentou demonstrar que deixa o cargo "sem ressentimentos, rancores e mágoas", mas foi traído por suas próprias declarações. Perguntado sobre os ataques que sofreu de políticos dos outros partidos aliados ao governo, Renan disse não ter entendido "o porquê dessa fofoca, dessa futrica". Ele também evitou comentar a reforma ministerial desenhada pelo presidente Fernando Henrique. "Compete ao presidente da República explicar a reforma", desconversou. "A reforma terá que ser vista pelo PMDB, pelo comando do partido", acrescentou.
A queda do ministro da Justiça vinha sendo esperada desde o início da disputa em torno do diretor-geral da Polícia Federal, uma das crises que paralisou o governo no primeiro semestre. Disposto a efetivar no cargo o delegado Wantuir Jacine - então diretor interino da corporação -, Renan entrou em confronto direto com o chefe da Casa Militar, general Alberto Cardoso, e pressionou Fernando Henrique.
Depois, causou constrangimento ao governo durante a posse do delegado João Batista Campelo, escolhido pelo presidente à sua revelia para a diretoria da PF. O ministro protagonizou a solenidade mais rápida da história do governo FHC. Sua ousadia foi sustentada pelas principais lideranças do PMDB, que também questionaram a autoridade do presidente. O PSDB e o PFL pressionaram por sua saída.
Hoje, Renan Calheiros sugeria que sua exoneração estaria ligada a "interesses contrariados" por sua atuação frente ao ministério da Justiça. "Trabalhei nos limites das minhas forças na defesa da população", afirmou. Colaboradores próximos ao ministro associam sua saída ao cancelamento, em abril deste ano, de concorrência para a confecção de passaportes, orçada em R$ 136 milhões, cujo consórcio vencedor incluiria uma das empresas que financiou a campanha eleitoral do governador de São Paulo, Mário Covas, que defendeu sua demissão. O ministro foi irônico ao comentar: "Prefiro entender que minha saída não resguarda nenhum interesse inconfessável."

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