Remédios substituem educação e controle
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quarta-feira, 08 de setembro de 2010
Agência Estado 
O medicamento usado no tratamento do Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) - vendido como Ritalina (Novartis) e Concerta (Jassen-Cilag) - está entre as substâncias controladas mais consumidas no País. Entre 2000 e 2008, o número de caixas vendidas passou de 71 mil para 1,147 milhão - aumento de 1.616%. A alta no consumo suscitou questionamentos sobre a banalização do uso do remédio à base de metilfenidato entre crianças e adolescentes.
Alguns especialistas apontam a demanda reprimida por um tratamento que existia e ainda existe no Brasil como causa do inchaço nas vendas. Para outros, é resultado de diagnósticos malfeitos - crianças que não se encaixam no padrão de aprendizagem e comportamento estariam sendo ''domadas'' à base de psicotrópicos.
O que alimenta ainda mais a polêmica é a dificuldade de diagnosticar o TDAH. Não há um exame definitivo. Os médicos se baseiam em relatos subjetivos de pais e professores sobre o comportamento da criança e num questionário com 18 sintomas relativamente comuns entre jovens, como falar em demasia, interromper conversas e dificuldade para esperar.
''O diagnóstico deve ser feito por um médico treinado e envolve outros especialistas, como psicólogo, psicomotricista e fonoaudiólogo. É preciso descartar outros problemas que afetam o comportamento e o aprendizado'', explica o psiquiatra infantil Francisco Assumpção, da Universidade de São Paulo (USP). ''Mas muitas vezes os critérios são preenchidos pela própria escola ou até mesmo pelos pais, que me procuram apenas para pedir o remédio.''
O analista legislativo Luís Fernando Leite dos Santos conta que sua filha de 16 anos foi recentemente diagnosticada como portadora de TDAH por ter apresentado alterações de humor e queda de rendimento no último bimestre escolar. ''Embora o relatório da escola afirmasse que o nível de dispersão nas aulas não era tão relevante, o médico receitou o remédio e ainda disse que eu poderia pegá-lo no posto de saúde'', diz o pai, inconformado.
No caso do garoto João Petrika, de 12 anos, a simples mudança de escola fez milagres. Há cerca de quatro anos ele foi diagnosticado como hiperativo e ingressou num programa de tratamento da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Fez terapia e tomou remédios. Mas o desempenho escolar só melhorou neste ano. ''Antes ele evitava a escola. Agora que mudou de colégio, tem apenas três faltas'', conta o pai Antonio Petrika. Há dois anos sem remédios, João tem outra explicação: ''Gosto mais desta escola porque os professores são melhores. Na anterior, gritavam o tempo todo.''
O TDAH é um dos transtornos mentais mais comuns em crianças e se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade. Estudos indicam que a prevalência na população é de 5%. Isso significa que numa sala de aula com 40 alunos, 2 teriam a doença. ''A dificuldade de aprendizado passou a ser sinônimo de problema com a criança, quando às vezes é da escola'', afirma Assumpção.


