São Paulo, 26 (AE) - Um remédio para dores de estômago fez com que o agente policial Mário Paviani, lotado no Departamento Estadual de Trânsito (Detran), se "esquecesse" de ter prestado informações sobre o esquema de corrupção no órgão. Preso semana passada e liberado por ter colaborado com a polícia, Paviani mudou hoje o teor de seu depoimento.
O policial garantiu aos promotores do Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) que não se lembra de ter dito que o investigador Fernando Areosa, conferente no Detran, seria responsável pelo recolhimento de R$ 1.200,00 por semana.
O dinheiro seria, segundo o primeiro depoimento, entregue à chefe de Postos do Detran, Cristina Carneiro. Paviani já trabalhou como motorista de Cristina, mas negou ter sido indicado por ela para trabalhar no Detran.
Cancelamento - Paviani deveria ter sido acareado hoje com Areosa, mas os promotores mudaram os planos com a retificação do depoimento. Ele afirmou que, ao depor na semana passada, estava sob o efeito do medicamento Targamed, vendido em embalagens com tarja preta. "Tomei sem saber o que era, não lembro de nada."
Paviani garantiu que não sofreu ameaças para mudar o depoimento. O promotor Arthur Pinto de Lemos Júnior, do Gaecco, duvida disso, apesar de Paviani ter recusado proteção policial.
"A primeira coisa que ele me disse hoje foi: Doutor, fui parar em uma bomba de gasolina." Para o promotor, a negativa não basta para anular o primeiro depoimento nem alterar o rumo das investigações.
"É curioso que ele sofra de amnésia parcial e só não se lembre de dados incriminatórios." Paviani afirmou não se lembrar de ter dito que os R$ 20.000 achados num cofre em sua casa seriam provenientes de propinas.
O agente negou ter recebido dinheiro de forma irregular e sustentou que conseguiu a quantia por meio da compra e venda de carros velhos. Ele disse, porém, não ter como comprovar as transações.
Outra informação da qual Paviani diz não se lembrar é a de que recebia R$ 5,00 por atendimentos feitos no posto do Detran do MorumbiShopping. O dinheiro seria pago por despachantes.
Nem todas as recordações, porém, sumiram da mente do policial. Ele admitiu ter contado, entre outras coisas, que fazia serviço de despachante para conhecidos, mesmo sendo lotado no Detran.
Areosa também voltou a ser ouvido, mas não houve novidades no depoimento. Indagado sobre a alteração do depoimento de Paviani, respondeu: "Como é que eu vou saber? Pergunta pra Mãe Dinah."
Ele deverá ser solto amanhã. O despachante Novival Barbosa, o Indio, seria solto hoje. Os dois, porém, continuam sob investigação.

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