Campinas, SP, 04 (AE) - Dois remadores, Alessandro Casella e Carlos Eduardo Vageler, partem amanhã de canoa por rios e represas, numa aventura de 3 mil quilômetros entre Campinas, São Paulo, e Buenos Aires, Argentina. Casella e Vageler remarão cerca de 30 km por dia e desembocarão no mar dentro de três ou quatro meses. Esperam, então, que o Projeto Remar até o Mar tenha resgatado muitas informações e experiências perdidas na pressa de quem faz o mesmo caminho de avião.
Durante o percurso, os dois remadores farão levantamentos ecológicos e culturais - relacionados, sobretudo à Hidrovia Tietê-Paraná e ao Mercosul - com a ajuda e orientação de especialistas, com os quais estarão em contato diário através de um computador de mão e conexão via Internet. A tecnologia de ponta do projeto não se limita às comunicações. Desde o treinamento profissional por que passaram neste último ano, na Companhia Atlética, até a canoa canadense de 6 metros - Mad River Canoe - a ser utilizada, tudo tem um toque high-tech: os equipamentos de sobrevivência, de navegação marítima e terrestre
o apoio logístico, o planejamento nutricional etc. Eles terão até previsão meteorológica particular, fornecida pela Embrapa Monitoramento por Satélite, com uma imagem diária do satélite NOAA, especialmente processada para a região onde estiverem.
Experientes em expedições radicais, professores de escalada e praticantes de vela, mountain bike, mergulho, canyoning e paraglider, Casella e Vageler não cuidarão só dos remos. Também farão documentários multimídia e contarão seu dia-a-dia através de uma homepage (http://www.remar.com.br), onde existe até uma seção educativa, dedicada às crianças, a Remar Kids. Alessandro Casella, que é designer, vai cuidar das imagens e ilustrações e Carlos Vageler, vai cuidar dos textos. As melhores passagens serão relatadas, de viva voz, aos ouvintes da "Rádio Eldorado", de São Paulo, e reproduzidas pela AGÊNCIA ESTADO.
Os dois remadores pretendem fazer comparações com o tempo dos bandeirantes e dos grandes exploradores do passado, que utilizaram os mesmos rios como via principal de acesso ao interior do País. Velhas instalações e alguns museus desta época estão no roteiro, como a casa dos bandeirantes às margens do Rio Piracicaba, restaurada para visitação. Os obstáculos no caminho dos dois remadores, entretanto, serão de natureza muito diversa daqueles enfrentados pelos bandeirantes, que concentravam nos índios arredios, nos saltos e cachoeiras, nas febres e em animais peçonhentos quase toda sua atenção.
Logo nos primeiros dias, Casella e Vageler se deparam com inimigos bem mais modernos: a poluição química de Paulínia e o desequilíbrio ecológico na represa de Americana, totalmente tomada por aguapés. A exemplo dos bandeirantes, porém, os dois remadores terão de evitar estes inimigos modernos carregando a canoa pelas margens, escalando pedras e afundando na lama. Outro obstáculo atual serão as sucessivas barragens, que dominam quase toda a extensão do Tietê e boa parte do Paraná, transformando a correnteza a favor - do Brasil antigo - numa sequência de águas calmas dentro dos lagos e turbulências, na jusante das represas.
Estas dificuldades, entretanto, não preocupam os dois aventureiros. Eles ainda garantem não temer problemas de relacionamento, comuns quando se colocam duas pessoas no exíguo espaço de uma canoa durante um longo período de tempo, acampando durante a noite em condições precárias, nas margens dos rios. "Conhecemos os nossos limites mútuos", diz Alessandro Casella. "Já viajamos muito juntos e conhecemos nossos defeitos e qualidades, estamos certos de que cada um fará sua parte".

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