Washington, 15 (AE) - Se o número de pobres é uma boa medida do desenvolvimento humano, o Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial (WDR) sugere que o mundo termina o século andando para trás. De acordo com as projeções apresentadas pelo estudo do Banco Mundial, o contingente de pessoas que vivem na pobreza absoluta - aquelas que subsistem com uma renda equivalente de menos de US$ 1 por dia - continuará a aumentar. Essa multidão de miseráveis, que era de 1,2 bilhão em 1987, já soma hoje 1,5 bilhão, ou 25% da população do planeta, e deve chegar a perto de 2 bilhões no ano 2015.
A recente crise financeira da ásia provocou o crescimento da pobreza mesmo nessa região, a única entre os países de renda baixa e média que vinha convergindo na direção dos países ricos. Usando o critério de US$ 2 de renda por dia, o WRD projeta uma aumento de quase 20% da pobreza na Tailândia entre 1997 e o ano 2000. Pelo critério de US$ 4 de renda diária, 50% dos russos e 60% das crianças russas vivem hoje na pobreza.
O alastramento do sofrimento humano traduz-se não apenas em aumento das desigualdades sociais dentro de países, mas numa ampliação do fosso que separa os países mais ricos, de um lado, e os países pobres ou os que estão entre os dois extremos, de outro. "O quadro global do desenvolvimento é preocupante", informa o relatório. Segundo documento, a renda média per capita do terço de países mais pobres e do terço logo acima, dos países médios, recuou nas últimas décadas em comparação com a renda média per capita no terço de países mais ricos, que começaram a crescer com maior velocidade em relação aos demais durante a Revolução Industrial, em medos do século passado.
No caso das nações da faixa intermediária, na qual se encaixa o Brasil, o PIB per capita caiu de 12,5% para 11,4% da renda dos países mais ricos entre 1970 e 1995. O declínio dos mais pobres foi ainda mais acentuado, no mesmo período - de 3,1% para 1,9%. De acordo com uma estimativa recente citada pelo WDR, a relação entre a renda dos países mais ricos e mais pobres aumentou seis vezes entre 1870 e 1985. "Esses dados são motivo de grande preocupação, pois eles mostram quão difícil é para os países pobres diminuir a distância que os separa das nações mais ricas", ressalta o relatório.
Para complicar ainda mais o cenário, o estudo constata que, tipicamente, para os mais pobres, a reversão da desigualdade dentro de cada país não ocorre necessariamente em paralelo com o aumento do nível de renda. Além disso, o crescimento médio no longo prazo projetado para as nações em desenvolvimento está abaixo do mínimo de 3%, considerado como pré-requisito para o sucesso de políticas de redução da pobreza. Entre 1995 e 1997, apenas 21 países - 12 dos quais na ásia - estavam acima desse nível. Entre as 48 nações mais pobres, apenas 6 registraram crescimento médio superior a 3%.
Os progressos feitos nas áreas da educação e da saúde e a redução das disparidades de gênero (a relação entre meninas e meninos na escola secundária aumentou de 70 para 100 para 80 para 100 entre 1980 e 1993 no conjunto das nações em desenvolvimento) ilustram os ganhos de duração de qualidade de vida alcançado por bilhões de pessoas pobres. "Mas alguns desses ganhos provaram ser frágeis", informa o WDR.
Uma variedade de fatores, entre os quais se destacam as crises econômicas crônicas e as recessões, estão erodindo os avanços na expectativa de vida em algumas regiões. Em países africanos travados pelo crescimento econômico anêmico e atingidos pela epidemia da aids, a esperança de vida recuou para o nível de 1980.
Outros indicadores, como o consumo de calorias, a qualidade da moradia e o acesso aos serviços básicos "continuam a ser profundamente insatisfatórios", avalia o relatório. "Das 4,4 bilhões de pessoas que vivem nos países em desenvolvimento, perto de três quintos não têm saneamento básico, um terço não tem acesso a água potável, 25% carecem de moradia adequada e um quinto não conta com serviços modernos de medicina". Mais: uma em cada cinco crianças não chega a completar cinco anos de escola. E uma porcentagem semelhante não consome a quantidade de proteína e calorias necessárias, um dado que explica, em parte, porque, todos os anos, aproximadamente 9 milhões de crianças com menos de 5 anos morrem nas nações pobres, vítimas de doenças totalmente previníveis.
A projeções demográficas indicam que a população mundial parará de crescer na metade do próximo século. Mas, até lá, o número de habitantes do planeta quase que dobrará, de 6 bilhões hoje para cerca de 10 bilhões em torno de 2050. Esse acréscimo exigirá que se duplique a oferta de alimentos nos próximos 35 anos, repetindo a experiência dos últimos 25 anos, para suprir um mundo onde já há 800 milhões de subnutridos.
Mas os agrônomos advertem que a tarefa agora será mais difícil
especialmente se for levada a cabo dentro do conceito do desenvolvimento economicamente sustentável, num mundo em que a água já começa a tornar-se um artigo difícil, três quartos das expécies de peixe de mar que entram na dieta alimentar estão sendo excessivamente explorados e se perde por ano 25 bilhões de toneladas de solo.
Se no passado a pobreza foi geralmente identificada com o campo, o próximo capítulo do drama do desenvolvimento ocorrerá nas cidades. De acordo com o WDR, um número crescente entre os mais pobres vive nas cidades. Em 1950, as populações urbanas e rurais de países pobres e ricos eram mais ou menos as mesmas, em torno de 300 milhões. No ano que vem, as cidades das nações em desenvolvimento abrigarão 2 bilhões de habitantes, ou mais do que o dobro do número de residentes urbanos dos países ricos. Em consequência, aumentará a demanda por serviços básicos, já hoje escassos, como água potável, esgoto, transporte, etc.
Ao mesmo tempo, a tendência de transferência da produção industrial para os países em desenvolvimento agravará o problema da poluição atmosférica. Segundo o Banco Mundial, "para a maioria das crianças nas cidades dos países em desenvolvimento, respirar o ar pode ser tão prejudicial à saúde como fumar dois maços de cigarros por dia". (P.S.)

mockup