Relatório do Unicef revela contrastes da saúde pública no Brasil
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quarta-feira, 21 de julho de 1999
Por Hugo Marques, especial para a AE 
Brasília, 22 (AE) - Relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) divulgado hoje, em Brasília, revela contradições no sistema de saúde no Brasil. Ao lado de avanços como a melhoria do índice de aleitamento materno, o estudo lista retrocessos na saúde pública do País. Intitulado "O Progresso da Nações em 1999", mostra que o mesmo País que conseguiu alcançar o segundo lugar no mundo por causa do aumento no índice de aleitamento materno e que erradicou a poliomielite, ocupa o quarto lugar no planeta em números absolutos de casos de tuberculose. O estudo mostra um País bem classificado somente nas áreas de saúde onde tem programas de longo prazo, que não foi o caso da tuberculose nos últimos anos.
"O número de casos de tuberculose é muito preocupante no Brasil", disse a representante do Unicef, Reiko Niimis. "Isto mostra que o sistema de saúde nesta área não chega de forma contínua aos pacientes que precisam". O relatório assinala que o Brasil, campeão em casos de tuberculose na América do Sul - com cerca de 85 mil casos por ano -, "não põe em prática" o tratamento supervisionado que dura seis meses. Menos de 10% dos pacientes recebem este tipo de acompanhamento no País, segundo os últimos dados, de 1986, índice que coloca o País ao lado de Uganda, Zimbábue e Afeganistão. Estimativas do Unicef indicam que o Brasil só perde para a Índia, China e Filipinas em número de casos da doença. Aids - Segundo o coordenador de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST-Aids) do Ministério da Saúde, Pedro Chequer, convidado para participar do lançamento do relatório do Unicef, a grande maioria dos casos de tuberculose no País não está associada com a aids. De acordo com Chequer, cerca de 5 mil pessoas com aids desenvolvem a tuberculose a cada ano no País. Para ele, a alta incidência da doença é decorrência de problemas como pobreza, falta de assistência e desemprego. E comparou a tuberculose a uma nova síndrome que atinge a população brasileira. "É como se tivéssemos um HIV social", disse.
Na opinião do coordenador do DST/Aids, houve um um "processo de deterioração" no tratamento da tuberculose no Brasil, desde o início da década, sem a prática do tratamento continuado. Ele,porém, deixou claro que o ministro da Saúde, José Serra, já tomou todas as providências para tentar reverter a propagação da doença, ampliando para todo o território nacional o Plano Nacional de Controle da Tuberculose.
Reiko Niimis, especialista em saúde pública, afirmou que a grande preocupação do Unicef é com a volta de doenças que já deveriam ter desaparecido do planeta, exigindo medicamentos cada vez mais fortes. "Isto é preocupante porque a tuberculose surge cada vez mais resistente", disse. Estatura - O Brasil também tirou nota baixa em desenvolvimento da estrutura física das crianças. Um total de 19% das crianças de área rural e 8% da área urbana sofre com problemas de baixo crescimento. Na carência de suprimento de vitamina A, que pode levar à cegueira, o País foi classificado entre os países onde o problema é de saúde pública e existe uma alta mortalidade de menores de cinco anos. A classificação é a mesma do Haiti e da Bolívia. A cobertura é considerada "deficiente". Amamentação - Mas há boas notícias para o Brasil no relatório do Unicef. Pela primeira vez nestes sete anos de levantamento de dados, os pesquisadores incluiram no trabalho o "índice de risco" para as crianças, a partir da fusão de cinco indicadores: mortalidade infantil, peso e idade, frequência escolar, incidência de aids e existência de guerra no país. O Brasil tirou nota 8, a quarta melhor nota do relatório, mas que foi concedida a vários outros. O País ficou na frente do México, Venezuela e do Equador, mas atrás de Cuba.
Entre os países com maior taxa de aumento do aleitamento materno, o Brasil ganhou o segundo lugar no mundo. Só perdeu para o Irã. Os dois países expandir os programas de agentes comunitários de saúde, que na avaliação do Unicef foi decisivo para difundir a importância do aleitamento. A diferença é que o Irã começou há quase duas décadas. No Brasil, o programa passou a ser difundido a partir da gestão do médico Adib Jatene, ministro da Saúde no primeiro mandato do presidente Fernando Henrique. Este mesmo programa teve influência na redução da mortalidade infantil, outra boa notícia. Aids - O estudo incluiu ainda uma classificação dos países pelo número de crianças órfãs de mães que morreram en consequência da aids. O Brasil não foi incluído na classificação porque não enviou os dados. Pedro Chequer levantou dúvidas sobre a precisão das estatísticas de outros países e prometeu compilar os dados nas próximas semanas.
O Unicef defende a transformação das dívidas dos países menos desenvolvidos em investimentos na área social. Reiko Niimis, no entanto, alerta que a troca não será automática, para todos. Serão criados padrões específicos e negociações para cada País. "Temos de estar certos que o dinheiro chegará às famílias que mais precisam", disse.


