Relatório do Unicef confirma aumento da tuberculose e dos índices de aleitamento materno no Brasil
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quarta-feira, 21 de julho de 1999
Por Hugo Marques, especial para a AE 
Brasília, 22 (AE) - Dados do relatório que o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) divulgou hoje, em Brasília, confirmam a expansão da tuberculose no País, que já ocupa o quarto lugar no ranking mundial da doença, com cerca de 85 mil registros em 1996. Apenas Índia, China e Filipinas apresentaram números superiores. "O número de casos de tuberculose é muito preocupante no Brasil", disse a representante do Unicef, Reiko Niimis. "Isso mostra que o sistema de saúde nessa área não chega de forma contínua aos pacientes que precisam".
Reiko Niimis, especialista em saúde pública, afirmou que a grande preocupação do Unicef é com a volta de doenças que já deveriam ter desaparecido, exigindo medicamentos cada vez mais fortes. "Isto é preocupante porque a tuberculose surge cada vez mais resistente", disse. O relatório, porém, também põe o País na segunda posição no mundo em termos de melhoria de aleitamento materno, além de acentuar a erradicação da poliomielite entre os brasileiros. De acordo com o documento, intitulado "O Progresso das Nações em 1999", o Brasil está bem classificado somente nas áreas de saúde onde tem programas de longo prazo e, no caso da tuberculose, "não põe em prática" o tratamento supervisionado, que dura seis meses. Menos de 10% dos pacientes brasileiros recebiam esse tipo de tratamento em 1996, uma condição semelhante à de Uganda, Zimbábue e Afeganistão. Aids - Convidado a participar do lançamento do relatório, o coordenador de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST-Aids) do Ministério da Saúde, Pedro Chequer, esclareceu que a grande maioria dos casos de tuberculose não está associada à aids no País. Ele disse que cerca de 5 mil pessoas com a síndrome da imunodeficiência adquirida desenvolvem a cada ano a tuberculose, cuja incidência decorre principalmente de problemas como pobreza
falta de assistência e desemprego. "É como se tivéssemos um HIV social", comparou. Segundo o coordenador, houve um "processo de deterioração" no tratamento da tuberculose no Brasil desde o início da década, por causa da ausência de tratamento continuado. Chequer enfatizou que o ministro da Saúde
José Serra, já tomou todas as providências para reverter a propagação da doença, ampliando para todo o território nacional o Plano Nacional de Controle da Tuberculose.
Estatura - O Brasil também tirou nota baixa em matéria de desenvolvimento físico das crianças, principalmente por causa de desnutrição. Um total de 19% das crianças da área rural e 8% das áreas urbanas apresentam uma estatura inferior à que é considerada normal. Em relação a carência de suprimento de vitamina A, que pode levar à cegueira, o relatório registrou uma alta mortalidade de menores de cinco anos no País, que recebeu classificação constrangedora: a mesma do Haiti e da Bolívia. Os especialistas do Unicef também consideraram alto o índice de partos por cesariana entre as brasileiras - 42% do total nas zonas urbanas. Amamentação - Pela primeira vez nos últimos sete anos de levantamento, os pesquisadores incluíram no relatório o "índice de risco" para as crianças, a partir da fusão de cinco indicadores: mortalidade infantil, peso e idade, frequência escolar, incidência de aids e existência de guerra no país. O Brasil tirou nota 8, a quarta melhor nota - também concedida a outras nações. Nesse item, ficou na frente do México, da Venezuela e do Equador, mas atrás de Cuba.
No caso da taxa de aumento do aleitamento materno, o Brasil registrou uma expansão anual de 4%, inferior apenas à do Irã, de 6%. Os dois países difundiram os programas de agentes comunitários de saúde, que na avaliação do Unicef foi decisivo para popularizar a importância do aleitamento. A diferença é que a iniciativa iraniana começou há quase duas décadas. No Brasil, o programa recebeu grande ênfase a partir da gestão do médico Adib Jatene, ministro da Saúde no primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso. Esse mesmo programa teve influência na redução da mortalidade infantil, outra boa notícia para o Brasil. Orfandade - O relatório incluiu ainda uma classificação dos países pelo número de crianças órfãs de mães vítimas de aids. O Brasil não foi incluído na classificação porque não enviou os dados. Pedro Chequer levantou dúvidas sobre a precisão das estatísticas de outros países e prometeu organizar nas próximas semanas as informações disponíveis.
O Unicef defende a transformação das dívidas dos países menos desenvolvidos em investimentos na área social. Reiko Niimis, no entanto, alerta que a troca não será automática, para todos. Serão criados padrões específicos e negociações para cada País. "Temos de estar certos que o dinheiro chegará às famílias que mais precisam", disse.


