Relatório descreve o "inferno" na Chechênia Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 23 (AE) - A organização humanitária Médecins du Monde (MDM) publicou hoje (56 anos depois da deportação dos chechenos por parte de Stalin em 1944) um relatório sobre a Chechênia. É um documento terrível. O relatório descreve o inferno. Na Chechênia, 150 mil pessoas andam errantes fora das cidades. Sem água, sem alimentos, sem médicos. Na vizinha Inguchétia, que conta apenas com 350 mil habitantes, há 250 mil refugiados chechenos - até 25 pessoas por barraca. A fome impera nos acampamentos.
A ferocidade está em toda a parte. Os soldados "vencedores" entram nas cidades, nos povoados, disparam seus fuzis como que a esmo, atiram granadas nas cavernas. Os testemunhos são inumeráveis. Execuções de mil civis num povoado perto de Grozny, chamado Aldi. E muitos acampamentos de "filtração" inominável, prelúdios aos "Gulags". Há observações como esta: "Desde o início da guerra, as instalações médicas chechenas foram sistematicamente bombardeadas". O sistema hospitalar não existe mais.
Em Grozny haveria ainda dez mil civis, sem o menor atendimento de saúde. Por ocasião da tomada da capital pelos russos, a maior parte dos feridos morreram no local onde estavam.
O presidente de MDM, Jacky Mammou, explicou que toda ação humanitária é controlada e dirigida pelos russos , ou seja, pelo Ministério das Situações de Urgência. Por sua vez, este Ministério está associado à guerra e à ação humanitária. "A ação da OTAN em Kosovo", diz Jacky Mammou, "trouxe imitadores. Confunde-se o militar e o humanitário".
Mammou afirma: "Estamos numa situação em que existe um crime de guerra, ou seja, um crime contra a humanidade, visto que Moscou é signatário das convenções sobre a imprescritibilidade de tais crimes".
E reclama pelo menos o livre acesso das organizações humanitárias na Chechênia.
A organização MDM manifesta sua indignação diante da passividade do Ocidente. Os países ocidentais se inclinaram diante de Putin como se humilharam ontem perante Yeltsin. E os grandes interesses privados do Ocidente, ainda mais frios e mais cínicos do que os Estados, continuam a desembolsar milhões de dólares em favor de Putin, esperando receber mais tarde os "royalties". O Clube de Londres, ao qual estão filiados os bancos franceses BNP e Crédit Lyonnais, adiou o pagamento da dívida russa. O Clube de Paris deverá seguir o exemplo.
Putin está sendo cortejado pelas capitais do Ocidente. Qual o motivo? Homem da ordem, ele vai fabricar uma Rússia nova, possante e compradora. Além disso, Putin não é comunista. É verdade que Putin afirma não ser comunista, Apesar disso, ele pertenceu à KGB (responsável por dezenas de milhões de mortos na União Soviética) e seus métodos se parecem extraordinariamente com os dos soviéticos: arrasar cidades, abrir acampamentos, recriar o complexo militar-industrial, fornecer aos militares todo o dinheiro que querem, ignorar os sofrimentos do povo.
E Putin começa a morder a liberdade de imprensa, única medida "liberal" que Boris Yeltsin adotou. Outra sobrevivência dos antigos tempos: a xenofobia "anti-chechena" (ou anti-caucasiana). Não se fala de combatentes chechenos, mas sim de "bandidos" ou de "terroristas", de plantadores de bombas (embora as bombas que explodiram em Moscou foram quase certamente colocadas pela FSB, organização sucessora da KGB). Única concessão de Putin: ele se opõe ao controle do Estado sobre a economia. E favorece a economia privada e livre.
E então? Putin é ou não é comunista? Esta é uma pergunta inútil. Mesmo renegando o comunismo, Putin continua sendo de alguma forma o herdeiro glacial de seus predecessores soviéticos.
O desastre da União Soviética teve sua origem em duas fontes; uma ideologia, certamente perniciosa, mas também o gênio do povo
que, ocupado pelos mongois durante três séculos, jamais aprendeu - ao contrário do Ocidente - a arte da negociação, mas apenas a arte da força brutal, que se extravasa na Chechênia (e, por extensão, no conjunto da Rússia).
O general de Gaulle, cujo "profetismo" faz uma falta cruel à história de nossos dias, sempre se recusou a falar em "União Soviética". Ele sempre falava apenas de "a Rússia".





