Relatório de prefeita denuncia tráfico e contrabando de órgãos
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quarta-feira, 03 de novembro de 1999
Por Luiz Carlos Lopes 
Mundo Novo, MS, 04 (AE) - O relatório que a prefeita de Mundo Novo (MS), Dorcelina Folador, (PT), entregou à Comissão de Direitos Humanos da Câmara antes de morrer denuncia o tráfico internacional de crianças e contrabando de órgãos na região. O documento está baseado nas denúncias feitas por Carlos Augusto Borges de Oliveira, que está foragido da Justiça. Originariamente encaminhado ao deputado Padre Roque (PT-PR), o relatório foi alvo de diligência da Corregedoria da Justiça de Mato Grosso do Sul.
Oliveira foi condenado por prática de atos libidinosos contra o menor S.S. que na época tinha 12 anos de idade. O denunciante foi acusado de ter forjado uma certidão de nascimento assumindo a paternidade da criança. No processo, ele alegou que era o pai biológico de S.S. e que a mãe havia morrido depois da separação, em consequência de complicações durante um novo parto.
O documento, redigido em abril de 1997, acusa o juiz de direito, Luiz Carlos de Souza Ataide, atualmente trabalhando na Comarca de Jardim, no Mato Grosso do Sul, o advogado Jair de Alencar, o ex-prefeito e proprietário da Clínica Santa Maria, atual Hospital Bezerra de Menezes, José Carlos da Silva, além, da responsável pelo orfanato Cristo Rei, Elvira Ribas Nunes de atuarem conjuntamente com o intuito de favorecer a adoção de crianças brasileiras , por casais de estrangeiros.
Segundo a denúncia, os casais pagavam dez milhões de cruzeiros (valor da época) por criança que conseguiam adotar. O dinheiro, de acordo com o relatório, era repartido entre o juiz, o advogado e a responsável pelo orfanato. Oliveira também relatou ter trabalhado com a responsável pelo orfanato, ensinando as crianças internas a confeccionar vasos de cerâmica. "Fui várias vezes a Paloma, no Paraguai, com dona Elvira, buscar crianças de dois a cinco meses de idade", afirmava o denunciante no documento .
Oliveira ainda explicou que as viagens eram feitas de táxi e que as despesas eram pagas pelo advogado. "Com os dias passando
aquelas crianças desapareciam do orfanato, eram levadas por casais estranhos, acompanhados do advogado, que seguiam para o Paraná, Foz de Iguaçu, Ponta Porã ou Campo Grande", disse.
Os casais, segundo ele, ficavam sempre hospedados no hotel que também pertencia ao médico e ex-prefeito de Mundo Novo. Ele afirma que a clínica Santa Marta era um dos principais locais para a obtenção de crianças passíveis de adoção. "As mães solteiras, na hora de dar à luz, eram dopadas."
O foragido relata ainda como conseguiu escapar da cadeia no dia 26 de fevereiro de 1995. "Um soldado e mais cinco seguranças do plantão, pediram para minha mãe (já falecida) R$ 12 mil para facilitar a fuga. Ele conta que a mãe conseguiu levar para prisão uma serra para ferro e uma broca. Além dele, fugiram outros 16 detentos. Ele relata ainda ter visto uma criança não identificada, enviada para um hospital por Alencar " toda enfaixada, como se estivesse vazia".
O advogado Jair de Alencar disse hoje que vai recorrer à OAB, pedindo a interferência do órgão no caso das denúncias entregues pela prefeita Dorcelina Folador, a Câmara dos Deputados. Ele negou as acusações e disse que o caso já foi objeto de investigação por parte da Corregedoria da Justiça do Estado. Ele não soube informar qual foi o resultado deste trabalho.
No depoimento que prestou a Justiça, o médico e ex-prefeito José Carlos da Silva confirmou ter recebido em seu hotel vários casais estrangeiros que estavam na cidade para a adoção de crianças, mas negou que em sua clínica mães solteiras entregavam seus filhos para serem adotados. Ele também defendeu o juiz Luiz Carlos Ataide. Elvira Ribas Nunes confirmou que manteve o orfanato Cristo Rei durante 12 anos e que o desativou devido ao estado de saúde de seu marido.
O secretário da Segurança Pública de Mato Grosso do Sul, Franklin Mashua, disse hoje que as investigações para descobrir os responsáveis pelo assassinato da prefeita continuam a ser realizadas em várias frentes. Hoje, dois delegados da Polícia Federal, chegaram a cidade para colaborar nas investigações. O secretário confirmou que o levantamento realizado junto a Federação Nacional de Seguros e ao Instituto de Resseguros do Brasil afasta a possibilidade de a ex-prefeita ter feito um seguro de grandes proporções, eliminando qualquer suspeita de que o viúvo, Cesar Folador, possa ter participação no caso. Para o secretário, todos os indícios levam para a suposição de que o crime teve causas políticas.


