Relatório da Funai revela situação dramática dos índios no MA
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terça-feira, 13 de julho de 1999
Por Hugo Marques, especial para a AE 
Brasília, 14 (AE) - Um relatório preparado por técnicos da Fundação Nacional do Índio (Funai) mostra que os índios das tribos kanela e guajajara, do Maranhão, não dispõem de condições sanitárias adequadas. Muitos indígenas estão bebendo água de lamaçais e de poços com fezes em volta, revela o documento. As doenças infecciosas e parasitárias entre os índios já correspondem a 66% dos atendimentos ambulatoriais na região.
Os técnicos da Funai visitaram 11 aldeias indígenas, entre 21 de junho e 3 de julho, para realizar inicialmente uma supervisão sobre o abastecimento de água. A situação encontrada levou os técnicos a sugerir que a fundação decrete "estado de emergência" em seis aldeias. Entre os casos mais graves estão o aldeia Santa Maria, onde o açude está totalmente seco. No açude próximo, usado pelos índios, o que os funcionários da Funai viram foi uma água barrenta, quase acabando, com fezes de animais em volta. O relatório diz que a situação do abastecimento é "urgente" e que "os casos de doenças diarréicas são bastante elevados".
Na aldeia Itaquatara, os índios dispõem de um poço de água salobra, que seca a partir de agosto. O córrego mais próximo fica fora da reserva indígena, a 15 quilômetros de distância. Na aldeia Coquinho, há fotos de índios buscando água em brejos com água suja. O relatório diz que, durante a visita, foi constatado que uma empreiteira estava dando início ao poço tubular, mas ressalta que "essa empreiteira é a mesma que iniciou as obras de abastecimento em outras aldeias" e que "não concluiu os trabalhos". Há aldeias com poços perfurados, mas sem bombas e encanamento adequado.
A não conclusão dos trabalhos não é o único problema enfrentado pelas tribos. Um memorando assinado pelo administrador executivo de Barra do Corda, José Dilamar Araújo Pompeu, documento que está anexado ao relatório da Funai, diz que no dia 2 de junho deste ano os funcionários de uma empresa que perfura poços nas aldeiras abandonaram a obra e, alcoolizados, "tiveram envolvimentos com índias", segundo versão do cacique.
As condições sanitárias precárias estão tendo uma forte influência sobre a saúde dos índios na região. A mesma Administração Regional de Barra do Corda fez um levantamento e constatou que as doenças infecciosas e parasitárias, nas quais se incluem as diarréias e "outras de veiculação hídrica", representaram 66,6% dos atendimentos ambulatoriais em 1998. O mesmo levantamento demonstrou que a mortalidade infantil entre os índios é de 115,4 óbitos por cada grupo de 1 mil nascidos vivos. As doenças diarréicas coresponderam a mais de 60% destas mortes.
O médico Oswaldo Cid, nomeado chefe do Departamento de Saúde da Funai, disse que a situação no Maranhão é "gravíssima". Segundo ele, o problema de abastecimento de água e saneamento básico também é grave na Bahia, especialmente nas aldeias dos pataxós. De acordo com o médico, a Fundação Nacional de Saúde (FNS) não está liberando dinheiro para obras de saneamento. Hoje, a FNS informou que os R$ 63 milhões disponíveis no orçamento deste ano é dinheiro "carimbado", que só pode ser investido na construção de distritos sanitários especiais.


