Rio, 26 (AE) - O relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico, deputado federal Moroni Torgan (PFL-CE), criticou o 2º vice-presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, desembargador Djalma Lofrano, que mandou libertar o advogado Arthur Eugênio Mathias, acusado de participar do crime organizado em Campinas. "O desembargador concedeu habeas corpus com argumentos irresponsáveis", acusou Torgan, hoje, durante um encontro com empresários na Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan).
O deputado enumerou os argumentos de Lofrano, para derrubá-los. Em primeiro lugar, citou o fato de o desembargador ter dito que a CPI mandou prender Mathias, advogado do homem-chave do esquema de Campinas, o empresário William Sozza. "Quem mandou prender não foi a CPI, que não pode prender ninguém, mas o juiz-corregedor de Campinas", ponderou.
Lofrano havia afirmado que o juiz decretou a prisão sem provas, porque os deputados não teriam remetido a ele as gravações com as testemunhas que acusam Mathias. "É um argumento mentiroso", rebateu Torgan. Ele garantiu que o juiz passou três horas ouvindo as gravações e lendo os documentos da CPI, antes de decretar a prisão. "Três bandidos que não se conheciam, de locais diferentes, acusaram esse advogado", afirmou o deputado. Torgan acusou também a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Campinas, autora do pedido de habeas corpus de Mathias, de exercer um "corporativismo anti-ético".
Torgan, apoiado pelos deputados Laura Carneiro (PFL-RJ) e Wanderley Martins (PDT-RJ), apontou Campinas como o lugar no qual a CPI encontrou maiores resistências ao trabalho. "São Paulo está tão comprometido como o Acre ou o Maranhão", afirmou. "Acontece que, lá, as autoridades fazem de conta que não há crime e o crime faz de conta que não há autoridade."
Na semana que vem, Torgan e o presidente da CPI, deputado federal Magno Malta (PPB-ES), têm um encontro marcado com o governador Mario Covas (PSDB).
O relator afirmou que, na região de Campinas, os policiais envolvidos com o crime organizado sofrem apenas inquéritos administrativos e são transferidos para cidades vizinhas. "Se o problema foi em Campinas, o policial é transferido para Limeira; se foi em Limeira, vai para Jundiaí", disse, indignado. Ele reafirmou a suspeita de que o investigador Luiz Roberto Lopes, encontrado morto na segunda-feira passada na Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise), não tenha se suicidado. "Quem suicidou esse investigador?", ironizou.
Torgan disse aos empresários que a CPI está mudando o foco de investigações sobre o narcotráfico no País. O deputado, que é delegado federal e ex-secretário de Segurança do Ceará, afirmou que o combate ao tráfico de drogas sempre se concentrou na base, no chamado criminoso comum. "A base é renovável, descartável e só se tem resultados quando se pega o ápice da pirâmide", afirmou.
DEA - Ele criticou o fato de, no Brasil, os melhores recursos serem destinados para investigações sobre o tráfico internacional de drogas, por incentivo do governo americano. "A parte operacional da polícia é bancada pelo DEA (departamento de combate a drogas dos EUA) e forças internacionais e as grandes apreensões são as das quadrilhas internacionais, o que não é ruim, mas este ângulo de visão está errado", apontou. Para Torgan, o Brasil não é apenas rota, mas mercado consumidor e as investigações aqui devem ser centradas nos financiadores locais do narcotráfico e nos cabeças das organizações.
Na semana que vem, a CPI já marcou o depoimento do coronel José Viriato Correia Lima, apontado como chefe do crime organizado no Piauí. Devem ser ouvidos ainda os policiais sob investigação em Campinas.
Antes do recesso, no próximo dia 15, os deputados devem visitar apenas Alagoas. Durante a paralisação do Congresso, a CPI vai se dedicar a analisar os documentos e inquéritos. "Quando estivermos com os documentos prontos, a CPI partirá direto para o indiciamento e pedidos de prisão", afirmou Torgan. A comissão retornará aos trabalhos em 15 de fevereiro.

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