Relação entre os dois partidos sempre foi tumultuada
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segunda-feira, 10 de abril de 2000
Por Murilo Fiuza de Melo e Wilson Tosta 
Rio, 11 (AE) - A relação entre PT e PDT no Rio de Janeiro sempre foi conturbada. O apoio do partido à então candidatura de Anthony Garotinho (PDT), em 1998, só foi possível depois da intervenção da direção nacional do PT no diretório regional. Por maioria, a convenção estadual do partido havia escolhido o ex-deputado Vladimir Palmeira para disputar a sucessão do governador Marcello Alencar (PSDB). Palmeira é da Refazendo, tendência que sempre foi contrária à aliança entre os dois partidos.
A decisão da convenção contrariava os interesses do PT nacional, que não abria mão de ter o ex-governador Leonel Brizola como vice na chapa de Luiz Inácio Lula da Silva na disputa pela Presidência da República. Em troca, porém, Brizola exigia o apoio dos petistas a Garotinho.
A intervenção da direção nacional impediu a candidatura de Palmeira e forçou o apoio a Garotinho, que foi eleito tendo como vice a senadora Benedita da Silva (PT), da moderada Articulação. No governo, porém, os problemas não iriam demorar a aparecer.
O primeiro caso que estremeceu o casamento PT-PDT foi a demissão do então presidente da Companhia Estadual de águas e Esgotos (Cedae), Marcos Montenegro, indicado pelo PT.
Montenegro reclamava que não tinha autonomia para administrar e acusou o governo de querer colocar o dinheiro da Cedae no caixa único do governo. Para justificar a demissão, Garotinho disse que Montenegro era "incompetente". Logo depois
porém, um conflito maior iria abalar de vez a base de apoio petista ao governador, que além da Articulação contava com o grupo do deputado federal Carlos Santana, atual presidente regional do PT.
Sem citar nomes diretamente, Garotinho chamou o PT de "o partido da boquinha", referindo-se ao um suposto apetite do grupo de Santana por cargos na administração. Na época, o deputado tentava acusava o governador de tentar alijá-lo do governo. A expressão cunhada pelo governador irritou Santana que mandou seus aliados entregassem os cargos - entre eles, o secretário de Transportes, Raul de Bonis - e ainda conseguiu aprovar no diretório estadual do partido, em outubro do ano passado, resolução que determinava a retirada imediata do partido da administração.
Mais uma vez, a crise foi contornada pela direção nacional do PT. Com a ajuda do presidente do partido, José Dirceu (SP), o diretório estadual decidiu anular a decisão, mas fez algumas exigências, como a criação do Conselho Político de Governo, uma promessa de campanha, e maior espaço político para o PT na administração. O conselho tinha como função auxiliar politicamente o governador, mas nunca funcionou efetivamente.
No mês passado, a relação entre PT e PDT foi colocada novamente em cheque. O petistas, entre os quais o secretário de Planejamento, Jorge Bittar, queixaram-se publicamente da demissão do coordenador de Segurança e Cidadania Luiz Eduardo Soares, que havia denunciado a "banda podre" da Polícia Civil.
Soares era um dos principais autores da política de segurança do governo, voltada mais para a defesa dos direitos humanos. Os petistas também ficaram irritados com a atitude de Garotinho, que demitiu o então auxiliar pela tevê e ainda divulgou para imprensa o último diálogo que os mantiveram por telefone.
Um dia depois da demissão de Soares, outra bomba afetou o relacionamento entre os dois partidos. O subsecretário de Planejamento, Élvio Gaspar, indicado por Bittar, um dos aliados de primeira hora de Garotinho, acusou integrantes do governo, de fazerem lobby a favor de empreiteiras em grande obras do Estado, como o Programa de Despoluição da Baía de Guanabara.
Garotinho ameaçou demitir Gaspar caso ele não apresentasse nomes, mas voltou atrás.
O último round da conturbada relação aconteceu há cerca de 10 dias, quando, pelo rádio, o governador anunciou a demissão do presidente da Empresa de Processamento de Dados do Rio de Janeiro (Proderj), Sérgio Rosa. Assim como Gaspar, Rosa, ligado à Articulação, afirmou que integrantes do primeiro escalão do governo - entre eles o secretário-executivo Luis Rogério Magalhães, homem de confiança de Garotinho - estavam acobertando a contratação de empresas privadas, sem licitação, para prestação de serviços na área de informática.


