Reichstul anuncia reformulação total da Petrobrás
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quinta-feira, 06 de maio de 1999
Por Suely Caldas e Irany Tereza 
Rio, 7 (AE) - À frente da Petrobrás há pouco mais de um mês, Henri Phillippe Reichstul anunciou hoje o que já havia sido insinuado por alguns integrantes do governo desde a mudança da diretoria da companhia: a Petrobrás será totalmente reformulada para adequar-se à abertura do mercado de petróleo. Dentro de 90 dias estará concluído o esboço da nova empresa, que terá como principal atividade a exploração e produção de petróleo. Todo o resto - como refino, distribuição e abastecimento - será apenas coadjuvante nesse cenário.
Participações acionárias serão permutadas com outras empresas privadas. A entrada da estatal em produção será mais agressiva em outras bacias sedimentares que não a de Campos, que hoje concentra 75% da produção nacional. A empresa se voltará para o que sabe fazer de melhor: retirar petróleo em áreas marítimas de grande profundidade, campo em que conseguiu recordes mundiais. áreas fora desse padrão deverão ser devolvidas à Agência Nacional do Petróleo (ANP) e outras serão agregadas, já que a Petrobrás participará da disputa em metade das 27 áreas que serão licitadas pela ANP no mês que vem.
AGÊNCIA ESTADO - A Petrobrás desfez-se de alguns ativos do setor petroquímico, mas manteve participação de 15% nas centrais. É um ativo que vale dinheiro. Qual a disposição da Petrobrás em vendê-lo e como será a política de venda de ativos na área de refino, dutos e gás?
Henri Phillippe Reichstul - Não tenho indicação clara da ANP de que a Petrobrás tenha de vender refinarias.
AE - A ANP sugeriu que, para facilitar o fim do monopólio, fossem vendidas, totalmente ou em parte, refinarias, ou que se fizessem parcerias com o setor privado.
Reichstul - Estamos falando em parcerias downstream (refino, distribuição e transporte). Acho que a empresa tem um volume de ativos muito grande, sem dúvida, e precisa realocá-los
fazendo trocas com parceiros. Acho que a empresa não extrai um valor suficiente desses ativos. Podemos obter mais com parceiros privados, se houver uma otimização desses ativos. Então, como filosofia, isso é uma coisa que ainda não está pronta, vamos começar a estudar. Estamos remontando a Serplan, que era o órgão de planejamento, de pensamento da companhia. Nos próximos 90 dias vamos ter um processo de revisão da estratégia da companhia
vamos chamar consultores, estabelecer algum tipo de meta de ganho para todas as nossas atividades, onde somos competitivos e onde não, quais são as tendências mundiais do setor, o que está acontecendo na América Latina. Com isso, vamos mudar um pouco o foco da companhia ou referendar o que já vinha sendo feito e consideramos correto. Haverá, em alguns casos, uma mudança de direção por causa do novo cenário, da política de administração.
AE - A consultoria já está sendo contratada?
Reichstul - Não, ainda não. São vários consultores que podem nos ajudar a pensar um pouco a companhia. Faremos isso com gente de fora, trazendo informação, novas formas de pensar. Mas, antecipando um pouco essa direção, a companhia tem muitos ativos
não precisa mais de ativos, exceto em exploração e produção, que são outra história, reservas de petróleo a gente precisa ter mais. Acho que há uma forma de redirecionar esses ativos, fazer swaps (trocas), por exemplo. Isso fará com que se aumente a concorrência, porque estaremos trabalhando com outras empresas e
ao mesmo tempo, não estaremos fazendo uma concorrência artificial, ou seja, abrindo mão de ativos só para criar competição. As permutas serão feitas conforme os interesses da empresa.
AE - A Petrobrás abrirá um leque de parcerias que seria o caminho para a abertura do mercado?
Reichstul - Não, seria do interesse da empresa. É claro que quem regula isso é a ANP, é função dela, e a gente vai ter de concordar com o que sair do nosso órgão regulador. Mas, do ponto de vista da filosofia da empresa, falando como presidente de uma companhia que tem valor, que tem ativos, a forma que eu vejo interessante é por meio de swap de ativos e discutindo parcerias, trazendo iniciativas, cultura privada para dentro da empresa, mais eficiência.
AE - Isso vale para todas as áreas?
Reichstul - Não há estudo feito ainda. Estou falando sobre a concepção geral. Há áreas nas quais estamos muito bem, com o mercado bem atendido.
AE - Como a distribuição, por exemplo?
Reichstul - A distribuição tem concorrência já. A BR-Distribuidora é líder. Não há necessidade de rediscutir os ativos, mas precisamos integrar a política de distribuição com toda a política de refino. Daqui a pouco todos os produtos poderão ser importados, vai mudar o jogo, que será bem mais complexo.
AE - Então, só em último caso a Petrobrás venderá ativos
como o de refinarias? O que se pretende é fazer troca de participação entre empresas, como por exemplo a participação de uma Texaco numa refinaria no Brasil em troca de a Petrobrás atuar numa refinaria no exterior?
Reichstul - Estamos, a princípio, pensando mais internamente. Mas, posso olhar de uma forma mais integrada e dar uma vantagem para a Texaco aqui, para citar a mesma empresa que vocês usaram como exemplo, se ela me der vantagem em exploração e produção lá fora. Teoricamente pode, mas não tem uma política clara ainda. Vamos primeiro definir nosso posicionamento diante deste mercado que está mudando. Vamos tentar apurar onde há parcerias interessantes a serem feitas pela empresa e procurar esses potenciais parceiros. Ou vamos ser procurados por eles.
AE - Então, a Petrobrás não pensa em reduzir ativos. Quando se falou inicialmente em venda de refinarias, a impressão era de que a empresa enxugaria seus ativos.
Reichstul - Vamos definir um pouco claramente. Enxugar dá uma idéia de que é uma coisa desnecessária, que se tem de reduzir porque está malfeita, porque está dando prejuízo. Não é essa a questão. Estamos falando de um ponto de vista empresarial
os ativos bons da companhia. Não que os outros ativos não sejam bons. Neste processo de apurar o core business (negócio prioritário) da companhia, a gente pode chegar à conclusão de que algumas áreas não trazem valor e estamos decididos a vender essas áreas por causa de A, B ou C. Foi mencionada a questão dos campos marginais, que é uma coisa recorrente. Não conheço ainda o caso a fundo, mas pode ser uma direção incentivar empresas no Nordeste a assumirem esses campos, montar cooperativas. Enfim, são idéias que estão colocadas, mas precisam ser apuradas. A companhia precisa refocar-se em função da vantagem comparativa dela, que é a produção de petróleo em águas profundas, logística de qualidade.
AE - Onde a Petrobrás hoje exerce um monopólio, isso seria...
Reichstul - Não existe mais monopólio.
AE - Tudo bem, mas onde por força do fato de ela ter sido monopolista durante mais de 40 anos, diante dessa realidade
os dois setores onde esse monopólio poderia prorrogar-se caso nada acontecesse seria na área de refino e na de transportes. Nessas duas áreas, especificamente, qual seria a filosofia, parcerias?
Reichstul - As refinarias estão aí. Tem umas mais e outras menos eficientes. Daqui a um certo tempo, todos poderão importar os produtos. Vai haver uma concorrência brava e teremos de nos preparar. Se houver refinarias mais competentes lá fora do que nós, trarão o produto a preço mais baixo do que o nosso. O fato de termos refinaria pode ser até um ônus, pode ser que ninguém queira aquela refinaria. Não sei, não estou falando com propriedade porque não tenho ainda os números, não analisei isso a fundo. Não preciso vender uma refinaria para aumentar a concorrência, que já será grande. Outras empresas podem montar uma refinaria que será forte concorrente da Petrobrás e teremos de posicionar-nos diante disso. Em algumas outras refinarias poderemos vender um pedaço, para fazer uma aliança. A Petrobrás vai ter de ajustar-se.
AE - Será uma tarefa difícil criar concorrência como pretende o governo e manter-se competitiva.
Reichstul - Mas a ANP vai criar regras de concorrência, essa é a função dela. E a Petrobrás vai aceitar, é óbvio. Não é função da Petrobrás criar a concorrência. É claro que vamos colaborar com isso, achamos que está tudo certo, mas a iniciativa não é da Petrobrás. Vamos deixar de lado conceitos e falar concretamente: na área de refino há uma capacidade ociosa enorme no mundo. A Petrobrás vai sofrer com a vinda de produtos mais baratos, não tem dúvida nenhuma. A abertura da importação agora não quebraria o parque de refino, mas obviamente as refinarias que estão com custo mais elevado ficariam em situação muito pior.
AE - A Petrobrás não participou do leilão do Comgás. O que motivou a saída da disputa em cima da hora? Já foi iniciada negociação com os novos donos da distribuidora para troca de ativos com a Petrobrás?
Reichstul - Há várias razões. A principal é que eu mandei parar um processo sobre o qual eu não estava informado e acho que exigia uma reflexão muito grande da Petrobrás se, dentro desse ambiente que estamos vivendo, a Petrobrás poderia entrar no leilão. E certamente a nova administração não teria tido tempo de analisar essa questão. De outro lado, a Petrobrás investiu uma brutalidade de dinheiro tanto na área de exploração de gás na Bolívia como no gasoduto. Havia concentrado um volume enorme de investimentos ali e não tinha nada na ponta. O que coloquei, e acho que corretamente, é que havia um desbalanceamento óbvio. E uma forma de rebalancear sem despender recursos da Petrobrás e dando uma certa lógica ao investimento já feita era tentar redistribuí-lo ao longo de todo o fluxo do upstream, meatstrem e downstream. Estamos analisando a possibilidade de ter uma participação minoritária na distribuição. Mas não começamos a negociação nem temos posição definitiva aqui dentro sobre isso. O conceito é o do reequilíbrio. É uma questão técnica, não é política.
AE - O monopólio também trouxe prejuízos para a Petrobrás?
Reichstul - Não tenha dúvida nenhuma. Ela foi chamada a fazer coisas que não necessariamente uma empresa privada faria. Estamos tentando identificar isso, trabalhar nesse processo. Preliminarmente, sabemos que há áreas nas quais a empresa entrou e deverá tranquilamente sair, como poços com custo muito elevado. Por exemplo, a Petrobrás tornou viável o gasoduto Brasil-Bolívia, senão não haveria mais gasoduto.
AE - No mercado fala-se muito que o gasoduto ficará pronto, mas não terá como chegar ao consumidor final. A Petrobrás terá de pagar por um volume de gás da Bolívia mesmo que não o use. Há risco de a empresa pagar por um gás que não será usado?
Reichstul - Espero que não. Basicamente, a questão é com relação às termelétricas. O programa de termelétricas atrasou para deslanchar. Mas ele vai sair, há uma necessidade de energia adicional. O ministro Tourinho tem-se preocupado muito com essa questão, teve o apagão e a qualidade do sistema elétrica caiu, como um todo. O próximo aproveitamento hidrelétrico vai demorar muito tempo a um custo muito elevado. A termelétrica a gás é uma solução e o gasoduto foi construído dentro dessa concepção. Entre as coisas mais emergenciais que temos aqui são as áreas de exploração e produção e a questão das termelétricas. Como empresa produtora e fornecedora de gás, preciso induzir o mercado a crescer, até porque uma parte do meu gás é associado, preciso arrumar um jeito de vender.
AE - A Petrobrás participará da licitação do mês que vem da ANP?
Reichstul - Vai participar em até metade das 27 áreas. Ainda não temos definido se sozinha ou em consórcios. Ainda não começamos a negociar isso, porque estamos ainda concluindo o processo de negociação de nossos projetos de parceria. Essa definição é que vai ditar como será a participação no leilão. Vamos dar preferência a áreas águas profundas.


