Amã, 04 (AE-REUTERS) - O rei Hussein da Jordânia, o governante há mais tempo no poder no Oriente Médio, abriu caminho entre décadas de guerra e alianças mutáveis antes de conduzir seu país a um acordo de paz com Israel considerado um marco na história.
Proclamado rei ainda adolescente, em 1952, assumiu o controle de um país que precariamente se equilibrava no coração do Oriente Médio
seu território tendo sido conquistado por potências coloniais depois da 1ª Guerra Mundial e depois estendido através do rio Jordão até a Cisjordânia.
Perdeu a Cisjordânia para o vizinho Israel em 1967 na Guerra do Oriente Médio e durante quatro décadas seu país permaneceu oficialmente em guerra com o Estado judeu. Quando ele finalmente fez a paz em 1994, considerou-a como a "realização de um sonho".
No exterior, foi saudado como um pacificador. Em seu país, seus súditos, muitos deles refugiados palestinos de sucessivas guerras árabe-israelenses, sentiram que o acordo tinha lhes trazido pouco benefício.
"A Jordânia e Israel estão em paz agora e eu estou decidido a fazer com que isso não se torne uma paz entre governos mas uma paz entre povos", disse o rei quando foi homenageado em uma recente cerimônia na Europa.
Como o líder árabe mais próximo de Israel, ajudou a convencer Israel a manter as conversações de paz com os palestinos, notavelmente em outubro de 1998, quando debilitado pela quimioterapia deixou seu leito de hospital para insistir com os dois lados para que fechassem um acordo.
Seus esforços refletem a consciência de que sua própria paz atribulada com o estado de Israel se tornaria insustentável se os acordos auto-regulados desmoronarem.
Mas seu apelo para que israelenses e árabes pensassem em "nossos filhos e nos filhos de nossos filhos" também mostrou uma crescente preocupação com o seu legado e com o futuro da dinastia reinante na Jordânia, a Hashemite, depois de duas batalhas contra o câncer.
A saúde do monarca foi acompanhada de perto no Ocidente, onde era visto como o regente que trouxe relativa estabilidade e tolerância a seu país. Sua amizade com líderes ocidentais remonta à época do presidente dos Estados Unidos Dwight Eisenhower.
No início do seu reinado, ganhou a reputação de ser um sobrevivente corajoso e sortudo, conseguindo resistir à onda de tentativas de assassinato, à perda da Cisjordânia para Israel e à guerra civil com os palestinos em 1970.
A imagem de um aliado fiel do Ocidente foi maculada na crise do Golfo de 1990 quando ele inicialmente tomou o lado de Israel. Depois voltou-se para o lado de Washington mas sua contínua dependência do petróleo barato iraquiano o deixou, como muitas vezes antes, dividido entre dois interesses conflitantes.
O rei Hussein nasceu em 14 de novembro de 1935, em Amã, então uma pequena capital de um país atrasado do deserto.
Sua família, a dinastia Hashemita, que remonta ao tempo do profeta Maomé, governou Meca e liderou a Revolta árabe contra o Império Otomano da Turquia antes que o avô de Hussein, o rei Abdullah, fosse instalado na Jordânia pelos britânicos.
Hussein era estudante no Cairo quando, em julho de 1951, juntou-se a Abdullah para uma visita a Jerusalém onde se encerrou abruptamente com sua adolescência. Um matador palestino assassinou Abdullah enquanto uma insígnia no peito de Hussein desviou uma outra bala.
O pai de Hussein, Talal, foi coroado rei e ele se tornou o príncipe herdeiro. Hussein foi enviado a Harrow na Inglaterra para completar seus estudos mas seu período de tranquilidade durou pouco.
Seu pai foi considerado mentalmente incompetente e quando Hussein adquiriu a idade constitucional de 18 anos, em 1953, assumiu plenos poderes como monarca.
Sua reputação de ter sangue frio foi intensificada por ele ter sobrevivido a uma dezena de tentativas de assassinato, incluindo uma tentativa síria de derrubá-lo quando pilotava seu próprio avião.
O problema doméstico que se repetiu foi a relação com os palestinos.
Dentro do que sobrou da Jordânia, os palestinos estavam convencidos de que formavam uma sólida maioria da população.
As relações com OLP (Organização de Libertação da Palestina) se alternaram entre a conciliação e a recriminação. Sua manifestação mais sangrenta aconteceu em 1970 quando o rei expulsou guerrilheiros da OLP da Jordânia.
Essa batalha deixou milhares de mortos nas ruas de Amã mas acabou com quaisquer idéias dos guerrilheiros palestinos de suplantar a monarquia Hashemite - ao menos enquanto o rei Hussein estivesse no poder.
O rei manteve a réde curta no país, evitando os excessos vistos em outros lugares da região.
Entretanto, depois de rebeliões custosas em 1989, ele ficou mais liberal.
Em 1993, permitiu as primeiras eleições multipartidárias desde a década de 50. Mas a oposição islâmica boicotou as próximas eleições de 1997 e, no meio de desencanto com acordo de paz e a economia em queda, o rei exigiu um controle mais rigoroso da imprensa.
Seu gosto por gestos sensacionais como entregar um de seus palácios para órfãos jordanianos ajudou a criar apoio pessoal mas despertou críticas.
No âmbito internacional, o rei Hussein mudou continuamente de alianças, sobrevivendo a qualquer outro líder do Oriente Médio.
Recebeu com tanques de guerra as forças invasoras sírias em 1970 e suas relações com o Egito alternaram-se entre frieza e amistosidade.
Aproximou-se do Iraque na década de 80, mas em 1995 virou-se abertamente contra o presidente Saddam Hussein e hospedou dois desertores de alta importância. Mais tarde, abrandou sua oposição a Saddam, o que tinha prejudicado um comércio valioso.
Enquanto esteve oficialmente em guerra com Israel, o rei mais tarde admitiu que tinha mantido encontros secretos com todos os líderes israelenses com exceção de Menachem Begin, que se recusou a recebê-lo.

mockup