Rei Hussein, autocrata e pacificador, clinicamente morto
Amã, 05 (AE-REUTERS) - O rei Hussein da Jordânia, pacificador, mestre em trocar de alianças e um símbolo de estabilidade no Oriente Médio, foi pronunciado clinicamente morto hoje (05), deixando um vazio de incerteza em seu país e em toda a região.
Líderes mundiais prestaram tributos a um homem que sobreviveu a 12 tentativas de assassinato, diversas vezes ganhou e perdeu a confiança de seu povo, de Israel e do Ocidente, e incorporava as complexidades dos problemas do Oriente Médio como poucos outros.
Esperava-se que parentes do rei Hussein concordassem na noite desta sexta-feira que fossem desligados os aparelhos que o mantinham vivo, acabando finalmente com sua batalha de sete meses contra um cânce linfático. Pelo menos 40 chefes de Estado são esperados para atender seus funerais no sábado.
Membros da família estiveram ao lado de sua cama para dizer adeus ao homem que governou a Jordânia com firmeza mas também com benevolência através de 47 anos de guerras, revolução, golpes militares e assassinatos.
O presidente americano, Bill Clinton, o chamou de "um maravilhoso ser humano, um campeão da paz". O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse que todos em Israel estavam rezando por ele.
O presidente francês, Jacques Chirac, chamou-o de "um grande governante... que inspirou o respeito de todos os líderes do mundo por sua contribuição à paz em seu país e em toda a região".
Cerca de 100 jordanianos se mantiveram em vigília na frente do hospital. "Não podemos ficar em casa enquanto ele está doente e nossos corações estão chorando", disse um, Mohammad al-Abdullat. "Se chorar ajudasse, iríamos alagar as ruas com lágrimas".
Menos de duas semanas atrás, Hussein, de 63 anos e o líder há mais tempo no poder no Oriente Médio, havia retornado da Clínica Mayo, nos Estados Unidos, e teve uma eufórica recepção de seus súditos, e se disse curado.
Mas ele permaneceu no país apenas o suficiente para trocar, de uma maneira tipicamente abrupta, controvertida e autocrática, a sucessão de seu irmão príncipe Hassan, que a mantinha por 34 anos, para seu filho mais velho, príncipe Abdullah, um major-general do exército.
Quando um transplante de medula óssea não foi bem sucedido em sua volta à Clínica Mayo, ele voou novamente de volta para morrer em seu país.
Mesmo em seu leito hospitalar em outubro, Hussein buscou suas forças para a causa da reconciliação, ajudando o presidente Bill Clinton a mediar um acordo de paz interino em Wye Plantation, Maryland, entre Netanyahu e o presidente palestino, Yasser Arafat.
Mas o acordo foi suspenso pelos israelenses e agora enfrenta ainda mais incerteza com uma indesejada eleição geral israelense e a morte do rei Hussein.
Foi Hussein quem fez a paz da Jordânia com Israel em 1994, pondo fim a um estado de guerra formal que durou décadas e ganhando popularidade no Estado judeu e aclamação como pacificador no exterior - mas substancialmente ressentimento doméstico.
Shimon Peres, o ministro do Exterior de Israel quando o tratado foi assinado, disse acreditar que Abdullah - um dotado e afável líder militar mas não versado em política - irá seguir o caminho de paz de seu pai.
Mas o agraciado com o Prêmio Nobel da Paz afirmou que será difícil substituir Hussein "Ele não foi apenas o pai da Jordânia. De várias formas, ele era uma figura paterna para todos nós".
De muitas maneiras, a vida de Hussein, num país criado apenas depois da Segunda Guerra Mundial e espremido entre os conturbados Israel e Iraque, incorporou os problemas do Oriente Médio.
Ele tinha apenas 15 anos quando seu avô, rei Abdullah, foi morto a tiros do seu lado por um palestino enquanto visitava Jerusalém, então parte da Jordânia. Uma insígnia sobre seu coração desviou a bala que poderia também tê-lo matado.
Um ano depois ele foi proclamado rei.
Ainda no começo de seu reinado ele ganhou uma reputação de ser um determinado - e sortudo - sobrevivente, escapando de uma série de tentativas de assassinato, a perda da Cisjordânia, incluindo Jerusalém, para Israel na desastrosa Guerra dos Seis Dias de 1967, e uma guerra civil com os palestinos em 1970.
Os palestinos, amargurados com a divisão de sua terra entre Israel e a Jordânia, permaneceram sendo um recorrente problema interno, encorajando-o a manter um regime autocrático que começou a ser liberalizado lentamente apenas depois de distúrbios provocados por aumentos de preço em 1989.
Mesmo enquanto seu país permanecia formalmente em guerra com Israel, ele continuava a reunir secretamente com seus líderes - parte de uma astuta flexibilidade que garantiu a ele sobreviver mais que qualquer outro líder no Oriente Médio.
Sua imagem de fiel aliado do Ocidente foi brevemente maculada na crise do Golfo de 1990, quando, como sempre dividido entre interesses conflitantes, ele se colocou inicialmente ao lado do vizinho Iraque antes de mudar firmemente para o campo de Washington.
Hussein escreveu em sua autobiografia que no dia em que ele quase morreu ao lado de seu avô, ele "descobriu uma particular paz interior oferecida àqueles que não temem a morte".





