A disseminação da aids no País avança entre as mulheres e, em especial, as adolescentes. Se, no princípio dos anos 80, a proporção de mulheres infectadas era de 1 para cada 40 homens, de 1997 até maio deste ano chegou a 1 para cada 2 homens. Na faixa dos 15 aos 19 anos, porém, o número de novos casos entre homens e mulheres já se equivale.
‘‘É um dado preocupante’’, disse ontem, em Brasília, o ministro da Saúde, José Serra, que apresentou as estatísticas oficiais da doença no País, registradas no novo Boletim Epidemiológico da Aids, que reúne dados até maio. Desde 1980, foram notificadas 135,2 mil contaminações, sendo 29,7 mil delas (22%) relativas a mulheres. De março a maio, o número total no período ficou em 6.814, embora um quarto disso corresponda a notificações tardias, ou seja, casos identificados em anos anteriores que só agora chegaram ao conhecimento do ministério.
A transmissão do HIV por via sexual é responsável por quase a metade das contaminações (49,6%). Nesse universo, as relações heterossexuais respondem por 60% dos casos. Segundo Serra, o avanço da doença entre as mulheres dificulta as ações preventivas. ‘‘Boa parte dessa mulheres é monogâmica’’, afirmou.
Para enfrentar o problema, o Projeto Aids 2, orçado em US$ 300 milhões, vai concentrar esforços na população feminina e na juventude nos próximos quatro anos. Parte dos recursos (US$ 165 milhões) será liberada pelo Banco Mundial, que autorizou anteontem o empréstimo. De acordo com o ministro, os cortes sofridos pela pasta no Orçamento da União não deverão atingir o programa.
O Ministério da Saúde já iniciou testes com preservativos femininos em Goiás, Fortaleza, Belo Horizonte e Salvador. Para essa fase, foram compradas 100 mil camisinhas. O governo vai procurar também a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e as igrejas evangélicas em busca de apoio para o controle da doença, em especial no meio familiar.
‘‘As campanhas têm de mudar o comportamento das pessoas’’, disse Serra, destacando a dificuldade desse tipo de objetivo. ‘‘Como convencer um marido energúmeno a não ter relações fora de casa e não contaminar a sua mulher?’’, exemplificou.
O Boletim Epidemiológico da Aids relacionou a incidência de contaminações à escolaridade na população acima de 13 anos: 61% (57,7 mil) do total de portadores do HIV cursaram só o ensino fundamental, enquanto 13% ( 12,4 mil) passaram pela universidade. A interiorização da epidemia também foi verificada. De 1980 a 1986, 78% dos casos concentravam-se em cidades com mais de 1 milhão de habitantes. Após 1992, essa proporção caiu para 52%.
Cem municípios concentram 81% (109.501) dos casos. Mas 2.814 cidades do País têm pelo menos uma contaminação notificada. São Paulo é a cidade com mais notificações (33.363, ou 24,7%), seguida do Rio (13.053, ou 9,7%), de Porto Alegre (4.386, ou 3,2%) e de Belo Horizonte (2.929, ou 2,2%). Em relação ao trimestre anterior - dezembro a fevereiro -, o período de março a maio deste ano registrou cerca de 2 mil casos a menos: o número de notificações no período caiu de 8,8 mil para 6,8 mil.

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